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SORTE

Eu já ouvi verdadeiras barbáries cometidas por mães para com os ex-maridos, suas novas parceiras e – acredite – com os próprios filhos. Muitas, mesmo. Alienação parental praticadas em plena luz do dia, mas deixando todos ao redor na mais completa escuridão.

 

Outro dia foi mais um dia de ouvir novos casos no grupo de amigas do whatsapp – ou melhor, novas incidências de casos muito antigos. Quando as vítimas são pessoas próximas, devo admitir que manter-se imparcial e lembrar que existem dois lados em toda moeda é quase impossível. Foi aí que uma das pessoas do grupo comentou o quanto eu tinha sorte de que a mãe do meu enteado era uma pessoa bacana.

 

Eu devo dizer que fiquei olhando pra telinha do celular uns dois minutos, como quem se pergunta: “eu respondo?”. Se eu ganhasse meio centavo por cada vez que já ouvi essa frase estaria nesse momento bebericando Moet Chandon no Ritz de Paris, com um roupão de algodão egípcio 300 fios da Ralph Lauren.

 

A verdade, a grande verdade, é que sim – eu tenho sorte. E nenhuma das pessoas que me fala isso tem a exata noção porque, mas sim, eu tenho muita sorte. Tenho sorte de que o relacionamento passado do meu marido findou para as duas pessoas em um mesmo momento antes de iniciar o meu.  Tenho sorte de que essa mulher sempre escolheu restabelecer sua vida e buscar novamente a sua felicidade.  Tenho sorte de que ela não só me aceitou, mas sempre fez questão de estabelecer comigo uma relação cordial da qual o Samuel testemunhou desde que era um bebê. Tenho sorte de que ela vai além dessa relação cordial e sempre estimula meus projetos profissionais/pessoais com um carinho e apoio que se equipara ao dos meus melhores amigos.

 

Tenho sorte, é inegável. O que as pessoas geralmente não enxergam é que essa palavra pode ser bastante perigosa se usada sem cautela, pelo simples fato de que “sorte” é um sentimento que vem totalmente isento de esforço. Sorte é randômica, é aleatória, é almoço grátis – e é aí que mora o meu descontentamento em ouvir esse tipo de coisa: essa palavra despreza todo o esforço que eu coloco no meu relacionamento com essa mulher.   Posso dizer que tenho sorte por ela ser uma pessoa tranquila que muitas vezes neutraliza a minha personalidade explosiva, sem dúvida. Mas dizer que tenho sorte porque ela me respeita, jamais. Me recuso, me nego e me ofendo: esse respeito foi algo que eu conquistei, dia pós dia e é meu, tão meu.  

 

Poderia eu dizer então que quem tem sorte é ela. Sorte de que eu sempre coloquei o vínculo do filho dela com o pai acima do próprio relacionamento com esse homem. Sorte de que não tolero meio-pai ao meu lado e de que essa conduta fez do meu marido um pai que já era bom infinitamente melhor pro Samuel. Sorte de que sou feminista e na minha casa menino lava prato sim, lava sua própria roupa sim, varre seu próprio chão sim. Sorte de que tenho todos os defeitos no mundo, mas que meu senso de justiça por vezes corta na minha própria carne e de que entendo que mulheres sempre serão mais fortes quando genuinamente unidas.

 

Sorte? Você pode até colocar dessa forma. Ao meu ver, todas essas coisas que listei são valores tão básicos de qualquer cidadão de bem que me pergunto porque devo eu me vestir de tamanha soberba ao afirmar que a outra pessoa que os recebe tem sorte. Se todas as pessoas parassem de supervalorizar gestos tão inerentes do que é ético e certo, talvez a convivência entre madrastas/enteados/ex-mulheres/maridos se desse de forma mais harmônica pelo simples fato de que algumas condutas não devem ser toleradas – sendo inclusive algumas delas crime.

 

Muitas pessoas me dizem que ela tem sorte porque eu ter desenvolvido sentimentos maternos e genuínos de amor pelo Samuel. Eu sempre respondo que  jamais poderia atribuir algo tão aleatório à essa mulher que participou tão ativamente desse processo. Sem a ajuda imprescindível dela, eu jamais teria conseguido amar essa criança – jamais. Sem essa mulher proporcionando um ambiente de mútuo respeito, essa criança teria se tornado dia pós dia mais resistente, mais detestável, mais difícil de ser amada – porque sim, é bastante difícil amar até uma criança se ela não tem nada pra te oferecer que não seja rejeição.

 

Sorte? Não ouse falar essa palavra, pois eu não permitirei. Sei que no processo houveram lágrimas, discussões, pedidos de desculpas, abraços, alfinetadas, sorrisos, indiretas, desacordos, risadas. Houve esforço, houve vontade e muito lentamente a convivência foi desembrulhando um relacionamento que está longe de ser perfeito, mas do qual eu tenho imenso orgulho. O resultado do nosso ESFORÇO foram dois lares onde essa criança é imensamente amada e nós duas somos felizes dentro das nossas identidades: ela, uma mulher divorciada*. Eu, uma madrasta.

 

Infelizmente, relacionamentos interpessoais – principalmente os da família mosaico - não cabem em uma lógica tão simples e tão linear assim. Conheço madrastas excelentes e que sempre se fizeram respeitar serem constantemente desautorizadas, difamadas, desrespeitadas e até agredidas. O que dizer pra essas mulheres quando sei que estão em um túnel escuro sem luz no fim? O que dizer quando na outra ponta desse relacionamento provavelmente senta alguém que não poupa nem o próprio rebento de tanto ódio? O que dizer quando temos que nos relacionar com alguém que escolhe, dia pós dia, ano pós ano, manter-se na mais absoluta cegueira?

 

Nada. Não posso te dizer nada. O que te peço enquanto madrasta é que você não conte com a sorte, como a nossa sociedade adora fazer. Dê o seu melhor, sempre. Tenha sempre condutas que sejam dentro do que é certo, do que é justo e líquido – não que seja fácil, não que seja possível - mas tente. Poupe a criança e perceba que ela é sempre a vítima mais vulnerável do fogo cruzado dos adultos. Isso não garante o sucesso do seu relacionamento com o seu parceiro, nem com a ex-mulher dele e muito menos com a criança, é verdade.

O que efetivamente garante é que, se um dia você optar por encerrar essa relação (essas relações), você caminha para fora dela (delas) de cabeça erguida e com algo de grande valia: consciência limpa. Você fez tudo que pôde, como quem corre uma maratona e entrega absolutamente tudo que tem. Você pode até não cruzar a linha de chegada, mas isso em nada desmerece a corrida.

 

Não conte com a sorte, conte com você, com o seu parceiro. Se a sorte aparecer no seu caminho, como apareceu no meu em forma de ex-mulher e em forma de enteado, seja grato. Retribua. E tenha a exata noção do tanto do seu próprio suor existe atrás do que as pessoas tão vulgarmente chamam de sorte – fará toda diferença no seu caminhar.

 

Da madrasta mais cabalística dos últimos tempos,

 

Naira Oliveira

 

 

*texto dedicado à  WM, por ter me proporcionado a pauta e para ML, por ser a pauta tantas vezes. <3

 

** olá, se você leu isso de forma pejorativa peço que você se encaminhe para a terapeuta mais próxima. divórcio não é sentença de morte, muito menos de caráter. não é. não é. não é. (se depois do terceiro não é você ainda está dizendo “é”, peço mesmo que você vá na terapeuta. beijos.)  

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O ANO DAS PEQUENAS GRANDES DESISTÊNCIAS

Publicado em 04/01/2018

 

Desistir. Palavra pejorativa, não? Uma escolha, inquestionavelmente. O ato de descontinuar um determinado fazer, pensar, crer. Dependendo do fazer, pensar e crer precisará ser mais que um ato: precisará ser um hábito. O hábito de descontinuar um comportamento com raízes que possivelmente são grossas e profundas.

 

2018 veio e trouxe essa decisão: a da renúncia. Cabalístico (e irônico) perceber que esse momento coroa os exatos 10 anos em que sou a madrasta do Samuel. Não teve bolo de comemoração, mas teve presente: o presente das pequenas grandes desistências.

 

Quantas vezes, em 10 anos, iniciei esse processo? Incontáveis. Muitas. Mas desistir sempre foi uma palavra proibida no meu dicionário. Sempre acreditei (e acredito) no poder da teimosia, do querer, do não aceitar. Sempre acreditei no questionamento das verdades do senso comum, na incoerência frequente das hierarquias, no ato de rebelar-se e na reinvindicação das coisas que são justas e certas. Minha mãe, coitada, todo dia se pergunta onde foi que errou.

 

Por 10 anos, eu quis muito mudar muitas coisas nas pessoas que estavam ao redor do Samuel. E mesmo nos dias em que eu via o tamanho da impossibilidade de mudar alguém, me era impossível assimilar a tão famosa aceitação e conformidade que me era sugerida sem a menor cerimônia por tanta gente diferente.

 

Conforme-se, aceite. Desista – essas palavras doíam no meu ouvido. Eu sabia que as consequências seriam graves demais e eu sabia que a única pessoa que as conhecia era eu. Se de um lado me diziam que o filho não era meu, do outro eu sabia que sim, que ele era e que ele sempre seria. Eu sabia que a única pessoa que entendia esse conceito distorcido de maternidade seria eu, afinal homens que são efetivamente pais são rara exceção no mundo de hoje. E sendo exceção, eu sabia que esse mesmo mundo não entenderia a especificidade do que eu vivia.

 

Foi aí que percebi que esse processo de equilíbrio seria guiado essencialmente por uma pessoa, uma pessoa apenas: eu mesma. Com minhas próprias pernas, construído com as minhas próprias mãos. Quantas vezes ouvi “não faça”,“não diga”, “não sinta”- e eu fiz, disse, senti. Fiz, e me arrependi. Disse, e ouvi de volta. Senti, e foi doloroso. Seria clichê dizer que não faria nada diferente, até porque eu faria. O tempo trouxe a percepção de que quando se tem o temperamento de um cavalo indomado, cada uma dessas experiências foram passos necessários.

 

Assim, muitos anos depois, chego na escolha de desistir. Desisto de mudar as pessoas. Desisto de trazer os dois polos opostos que regem a vida do Samuel para o centro, mas me responsabilizo de fazer esse caminho do meu lado de forma mais genuína. Desisto das horas debatendo sobre coisas das quais não tenho jurisdição. Desisto de mostrar à todos que rodeiam o Samuel da consequência de seus atos, suas escolhas, seus valores. Desisto das horas tentando convencer o meu marido a também não desistir.

 

Nesse processo, também aceito. Aceito que a personalidade do Samuel será influenciada de formas das quais não aprovo. Aceito que isso tornará meu fardo mais pesado pois eu nunca escolho o caminho mais fácil. Aceito os momentos de negligência da mãe e aceitarei os momentos de negligência do pai. Aceito que ele não é meu filho. Aceito que o conceito do que é melhor para uma criança é subjetivo. Aceito que não estou sempre certa. Aceito a hierarquia que rege as relações familiares. E aceito o fato de que posso me tornar a madrasta simplesmente escolhe fechar suas portas para as escolhas feitas por uma mãe e um pai ao longo da vida de um filho.

 

Desisto, aceito. Por uma vida mais leve? Não, leveza não combina muito comigo. Sou movida à desafios, acumulo funções, acumulo trabalhos, sou fã de um dedo na ferida – dos outros, das minhas. Mas desisto e aceito porque precisava crescer, amadurecer. Desisto e aceito porque o conceito de tempo mudou depois que me tornei mãe: tornou-se escasso, raro. Percebi que preciso viver mais, melhor.

 

Sou grata que consegui ser essa madrasta que fui esses 10 anos. Consegui louros e feitos que jamais teria caso a aceitação e a desistência tivessem entrado na minha vida antes. Olho para a trajetória e vejo o caminho que percorri: cheio de erros, rompantes, atropelos – tão eu. Por vezes movido por ego, por vezes movido por raiva – tão eu. Movido por uma personalidade que não diz meias palavras e é incapaz de ser política – tão eu.

 

Mas também movido pela tentativa de acertar. Pela vontade enorme de conseguir. Movido pela constatação de que nossos atos nesses 10 anos repercutiram intrinsicamente na pessoa que o Samuel diariamente constrói, e que a infância dele foi fase decisiva em sua formação. Movido por Montessori, Steiner, Mário Cortella, Paulo Freire, pelo feminismo, pelos meus antepassados. Pela ambição de querer que ele seja muito além de mim, do pai e da mãe. Inquestionavelmente, movido por amor – e em tempo algum haverá força mais sutil que gire esse mundo louco que vivemos.

 

Isso sem dúvidas não apaga as falhas e tropeços do caminho, mas o torna único. Meu, tão meu. Lindo! Fez de mim humana, tentante, errante e essencialmente triunfante. Não só porque Samuel carregará por toda sua vida o resultado do meu esforço, mas porque em todos esses anos dei absolutamente o meu melhor nesse processo – e isso me permite encerrar essa fase com um sorriso no rosto, uma mente em silêncio e a maravilhosa sensação de dever cumprido.

 

Para todas as madrastas nesse processo, o meu abraço apertado. Empoderem-se, sempre - e só depois, façam suas próprias escolhas dos seus próprios processos.

 

Com amor,

 

Naira

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O OUTRO LADO DA MESA 

Publicado em 20/12/2017

 

Outro dia pensei seriamente em me separar. Me desculpe a falta de sutileza logo assim no início do texto, sem aviso prévio nem lubrificante - mas aconteceu. Em um relacionamento que caminha pro seu décimo ano, nada mais natural do que a vontade de pegar a rota teoricamente mais fácil quando as diferenças e o cansaço batem de frente.

 

Com a impulsividade infantil que me pertence, decidi: me separaria. Deitei a cabeça no travesseiro e planejei onde moraria. Avaliei se os custos cabiam dentro das minhas possibilidades. Planejei o impacto de um divórcio no meu desempenho profissional. Ensaiei dividir a notícia com a família e amigos. Me preparei para os protestos que certamente viriam, respondendo mentalmente um por um. Então, e só então, pensei nos meus filhos – dois, pois estou grávida novamente.

 

Me perguntei como seria meu futuro ex-marido como pai em voo solo, sem a minha presença ao lado explicando o choro do bebê ou acordando pra confirmar a suspeita de que um deles estava com febre de 39o na madrugada. Me questionei se confiava nas pequenas decisões que ele tomaria sem a minha educação montessoriana-construtivista-diferentona por perto. Vislumbrei quem ele escolheria para ficar ao seu lado e que tipos de valores éticos e morais norteariam a pessoa com a qual ele viria a dividir a vida – consequentemente, meus filhos.

 

Algumas das respostas me tiraram o chão. Algumas das possibilidades fizeram meu sistema endócrino secretar muitas doses de adrenalina no meu sangue: de medo, de raiva. Em menos de 5 minutos me fazendo perguntas e as respondendo nos piores cenários possíveis, me vi na sala de audiência, bradando a plenos pulmões perante um juiz que os filhos são meus, somente meus. Não achando suficiente, considerei mentalmente a possibilidade de embarcar com as duas crianças para fora do país com uma autorização de viagem falsificada caso o juiz decretasse a guarda compartilhada – o riso hoje é livre, aproveitem.

 

Foi nesse momento que o chão verdadeiramente se abriu diante dos meus pés: em menos de 5 minutos de um cenário puramente imaginário, eu havia me tornado a mãe do texto “prezada mãe” - simples assim. Logo eu. Logo esse texto. Sentei na cama tamanho o horror que essa constatação e assim permaneci por um longo tempo digerindo o que tinha acontecido.

 

Eu sempre soube que me tornar mãe culminaria em um grande processo de desconstrução e isso era algo que eu temia fortemente. Que ideias viriam a cair por terra? Que crenças, que valores, quais pilares eu testemunharia ruir do dia pra noite? Por todos esses anos, eles haviam me sustentado firmemente até ali. Por todos esses anos, eles definiram o tipo de madrasta que eu escolhi ser. Como seria analisar todas essas variáveis agora conhecendo o outro lado da moeda?

 

Devo dizer que as minhas amigas já mães e leitoras ávidas deste blog esperaram pacientemente por este dia com a pipoca e o óculos 3D em mãos. Elas sabiam que alguns desses valores, ideias e crenças muito possivelmente eram meras teorias por não ter eu vivenciado ainda a maternidade. Elas sabiam que ser mãe traria uma profundidade sem precedentes e que sentar do outro lado da mesa seria revolucionário.

De fato, foi. E foi tão revolucionário que escrever aqui tornou-se difícil: era preciso agora pesar casa palavra, imaginar outros cenários, me colocar no lugar de todos os envolvidos. Com esse processo, muitos textos foram parar no lixo.

 

A ideia da separação na manhã seguinte passou. Mas o que senti naquela noite, não – ficou comigo, firme. Reli o texto “prezada mãe” e reiterei em cada palavra o quanto ele era forte, coerente, atual, necessário – um dos mais lidos aqui, por sinal. Onde havia eu falhado para ter me tornado, mesmo que por cinco minutos apenas, na protagonista desse texto? Do que seria capaz me sentindo animal encurralado, com as crias embaixo da asa? Quão prejudicado seria meu senso de justiça e o quanto capaz seria eu de julgar o que efetivamente é importante para os meus filhos estando ferida com uma separação?

 

Confrontada com minhas próprias respostas, senti uma profunda vergonha do fato de que julguei essas mulheres, até as mais desequilibradas. Percebi que havia sido por vezes rasa em meus apontamentos e que tinha ignorado a máxima de que cada caso é um caso. A maternidade me fez enxergar que ser mãe, por vezes, é perder completamente a racionalidade, o fio da meada, a noção de certo e errado. Quem sou eu para dizer para essas mulheres, o que elas devem ou não devem fazer em relação ao caos que se tornou suas vidas?

 

A verdade é que eu não sou ninguém. A verdade é que posso apenas imaginar como deve ser dividir a tutela dos seus filhos separadamente com alguém que você não confia inteiramente. A verdade é que, por cinco minutos, em nada fui diferente dessas mulheres das quais tanto julguei. Mas é também igualmente verdade que essas mulheres precisam de ajuda, de contraponto, de um lembrete de que não podemos simplesmente ceder à irracionalidade da passionalidade do nosso amor de mãe. Não podemos justificar os nossos absurdos para com nossos próprios filhos sob a justificativa de que os amamos incondicionalmente. Não podemos, não devemos. Não seria justo com eles, muito menos conosco: é preciso resistir e voltar nosso olhar para nós mesmas. Que habilidades precisaremos desenvolver para voltarmos a ser felizes? Que habilidades temos que buscar para que eles passem por isso da melhor forma possível?

 

Percebi nesses cinco minutos que, caso divórcio consumado, teria eu que aprender à navegar com lucidez nas águas das minhas próprias tormentas. Esse é um processo tão individual, tão internalizado e tão íntimo que possivelmente levaria bastante tempo. Possivelmente, eu cometeria um punhado de erros na busca pelo acerto. Possivelmente, alguém de fora escreveria uma carta com o título “prezada mãe” me descrevendo, enquanto a calmaria não chega.

 

Hoje, como mãe, louvo essa outra mãe que está no processo de tentar e errar. Se ela está desperta da parte que lhe cabe na situação em que se encontra, ótimo. É o início de uma longa caminhada. Hoje, como madrasta, louvo meu texto. Continuo assinando embaixo de cada letra dele. Li ele sendo a mãe fugindo com os filhos de uma guarda compartilhada e rapidamente ele me trouxe ao eixo. Ele me lembrou que mesmo na irracionalidade do amor sem medidas pelos filhos, lucidez é fundamental – pelo bem deles, e pelo nosso também.

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VANGUARDA

Publicado em 26/05/2017

 

Vanguarda. Outro dia parada no trânsito essa palavra veio pra mim. Assim, do nada – não me pergunte o por quê. Entre um sinal vermelho e outro, fiquei me perguntando o que significava até que joguei no google e tive uma enorme epifania  em relação a esse blog.
 
Vanguarda: a guarda avançada ou a parte frontal de um exército. Palavra amplamente empregada metaforicamente que defende o movimento de  ruptura de modelos preestabelecidos, defendendo formas antitradicionais. Aclamação do novo, exploração das fronteiras do experimentalismo.
 
É isso! É exatamente isso - eu pensei, enquanto os carros buzinavam pra que eu me locomovesse. Esse blog não só é pautado pela história da minha família, que sim, é uma enorme exceção nas famílias mosaico.  Esse blog fundamentalmente é pautado e suportado por ideias vanguardistas: simples assim. Que paz que senti, criaturas.
 
Desde o primeiro texto é claro e palpável que esse blog pede encarecidamente: rompa com os conceitos do que é ser madrasta. Rompa com as  ideias do que define uma família. Rompa com as crenças formadas em algumas dezenas de anos em como se relacionar com crianças, ou qual a posição de um homem e uma mulher na formação delas.
 
Rompa. Eu sei que não é fácil, mas tente: o mundo mudou. Algumas dessas ideias podem não mais caber no que vivemos atualmente, enquanto sociedade.  Algumas dessas ideias não mais abraçam todas as famílias, então rompa com elas. Muitos desses conceitos não priorizam o bem estar de crianças, então não os considere.
 
Chegou a hora de revermos tudo, de revermos tanto. Separações não são mais a exceção, são quase a via de regra. É inegável que essa é e será a realidade de tantas famílias: dos meus filhos, talvez.  Quem que garante a eternidade de um relacionamento entre duas pessoas? Absolutamente ninguém. Se isso acontecer, que crenças vão me ajudar a proporcionar um ambiente de transição para essas crianças?
 
A verdade é que eu não tenho as respostas. A verdade que esse é um assunto que deve ser abordado com empatia e sensibilidade, sim. A verdade é que essa forma não se aplica à todos os casos, não. O cerne da questão aqui não é dar uma receita de bolo para que pessoas sigam felizes em um momento escroto como uma separação, jamais.
 
 
A questão é: no que você tem se apegado nesse processo? E as pessoas ao teu redor? E os profissionais que você escolheu para fazer parte da tua vida, que pensam eles? Esse universo de pessoas possuem crenças são excludentes ou inclusivas?
 
Já fui tratada com desdenho por uma diretora de escola que achava que madrasta não era da família e não poderia tratar de assuntos pedagógicos, mesmo com o aval de ambos os pais. A ex do meu marido já foi chamada de ingênua, por manter uma relação cordial comigo (“quando eles casarem você vai ver quem ela realmente é”, profetizaram*). Meu marido já foi chamado de paizão por pagar pensão e estar presente na educação do Samuel.
 
Antes eu diria: quero distância desse tipo de gente. Hoje em dia, isso mudou: eu quero essas pessoas do meu lado. Senta aqui, vamos conversar. Madrasta é parte da família sim. Tratar uma pessoa que está diretamente ligada ao bem estar do seu filho com cordialidade não é ingenuidade,  é na verdade ser bem inteligente. Pai que paga pensão e participa da educação da criança não é paizão, é apenas alguém que está fazendo sua obrigação.
 
Esses conceitos não caberiam na vida da minha mãe quando ela tinha a minha idade, eu sei. Novamente, enfatizo: o mundo mudou. Muda todo dia, já está um pouco diferente de quando eu comecei esse texto. Não só irei eu abraçar essa mudança como buscarei fazer a diferença em crenças que sejam mais inclusivas e que abracem as novas formas de se relacionar que tem se desenvolvido. 
 
Será que a monogamia é algo aplicável à nossa sociedade? Devem casais separados morar sob o mesmo teto? É válido encerrar um casamento via whatsapp? Devo eu perdoar uma traição em prol do bem estar dos meus filhos? Devo permitir que meu enteado que conheci semana passada me chame de mãe?
 
Eu não sei. Eu não faço ideia das respostas. O que sei é que me permito fazer as perguntas. É incrível pensar que a mais absurda das perguntas é a realidade de alguém aí fora. Só por esse motivo, ela é válida e merece respeito. Merece ser considerada e incluída: isso, por si só nos tempos de hoje, é ser vanguarda.
 
Seja vanguarda, então. Não existe mais modelo ideal, ou certo. Rompa com qualquer ideia que te prenda, te exclua, te machuque. A vida é tão ampla, não?
 

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VOCÊ CRESCEU 

Publicado em 23/05/2018

 

Samuel,
 
Você cresceu. Eu não posso dizer que não percebi, pois eu percebi. É nas menores das coisas que noto que a criança que existe em você ensaia uma tímida transição para a pré-adolescência, e eu preciso respirar fundo para processar isso.
 
Eu lembro a primeira vez que te vi. Você tinha 6 meses, seu pai e eu éramos colegas de trabalho. “Deixa eu segurar?” – eu pedi, e você veio do colo da sua avó pra mim. Mal sabia eu que pouco mais de um ano depois estaríamos frente à frente em circunstâncias totalmente diferentes, onde haviam toneladas que pesavam sobre meus ombros e uma voz interior que gritava: “você tem a obrigação de se afeiçoar à essa criança!”
 
Pois bem, sabemos que isso não aconteceu. Você tinha dois anos, estava no auge da fase da birra. Provavelmente também estava perdido, sem entender porque raios você não encontrava mais seu pai dentro de casa. Já eu, estava no auge da minha insegurança. Os meus níveis de empatia naquela época por crianças girava algo em torno de zero. E assim começamos: nos tolerando.
 
Havia outra opção? Não. Nós amávamos o mesmo homem. E ele também nos amava de volta. Não foram poucas as vezes que me perguntei porque que dentre um universo de pessoas, eu tinha que ter escolhido logo o teu pai – consequentemente, você.
 
Assim permanecemos por um bom tempo: amarrados, por obrigação. Hoje, e somente hoje, eu percebo que sem essas amarras nós teríamos um caminho mais fácil chamado zona de conforto. Você, aprendendo a comer. Eu, aprendendo a ser alguém menos egoísta. Menos insegura. Mais empática,  mais simpática (#fail). Essencialmente, melhor. Ah, como doeu. Doeu mais do que quando você tinha que tomar suco de beterraba.
 
Então, você foi crescendo. A fase da birra passou. A fase do vídeo game chegou, a fase de odiar ir pra praia também. Começou então o desafio para trabalhar dentro de mim a aceitação: a pura e simples aceitação de que crianças não necessariamente precisam ser uma fiel extensão de nós. Você tornou-se católico e mais uma vez precisei aceitar o cansaço e a enorme frustação de ter dois ambientes tão distintos moldando a tua personalidade.  
 
Você cresceu mais, eu cresci também. Começamos a dividir interesses em comum. Começamos a perceber que nossas personalidades são opostas, e hoje em dia rimos juntos disso.  Quando pisquei, a lei permitia que você sentasse no banco da frente. Te deixei no colégio novo que não é mais novo e vi nos teus ombros as toneladas da responsabilidade que essa mudança trouxe para você. Nessa hora, mais que nunca, percebi: você cresceu. Em 8 anos de convivência, pensei: (insira palavrão), ele cresceu. Isso é bom? Isso é ruim?
 
Enquanto eu decidia a resposta, me veio o pensamento de que você não só cresceu, como você me levou junto no seu crescimento. Não era eu, a adulta, que deveria fazer isso por você?
 
Hoje em dia, percebo que não. Hoje em dia, percebo que só uma força como o amor (que, no início, era exclusivamente relacionado ao teu pai), pode transformar vidas e, principalmente, pessoas. Hoje em dia, percebo que não fui eu que escolhi teu pai, foi você que me escolheu. Nenhuma outra pessoa passaria pela minha vida e teria a capacidade de mudar uma cabeça tão dura como a minha, que não fosse você – uma criança, no auge da fase da birra. 
 
E assim, hoje estamos: sem amarras, mas ao mesmo tempo, com o mais forte dos vínculos: o de amar genuinamente. O de ser família, e isso em nada envolve um papel que declara teu pai e eu casados. É mais uma energia, uma vontade, um saber que vem de dentro do peito.
 
Você cresceu. E eu cresci com você, por você, em você.
 
Da madrasta que ainda joga UNO melhor que você,
 
N. Oliveira
 

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DEPOIS DA TEMPESTADE, VEM A PAUSA

Senhoras,
 
O texto anterior foi excluído. Pensei em editá-lo, e até tentei diversas vezes fazê-lo, até chegar na conclusão que ele precisava ser mais profundo nas questões que levantava. Era um texto que falava essencialmente do senso de responsabilidade que carregamos (ou deveríamos) nas nossas decisões e como isso impacta na nossa vida.
 
Uma mulher, enquanto madrasta, sempre vai ter escolhas. Sempre. Ir, ficar. Persistir, desistir. Estourar a cota de carboidratos: nós somos responsáveis por cada escolha que nós fazemos. Estamos onde nos colocamos. Receita de bolo? Deixo a resposta para o seu livre arbítrio (logicamente, para o seu grau de maturidade também).
 
O texto era um dedo na ferida de um velho conhecido das madrastas: a sensação de que as pessoas escolhem por nós. A sensação de que o controle das nossas vidas foge das nossas mãos. Acontece que.. não, não foge. O texto quis mostrar isso.
 
Um dia, com mais calma, vou entrar no assunto com mais profundidade. Com mais empatia? Talvez. A maternidade trouxe pra mim a conclusão de que empatia é fundamental. Me pergunto, apenas, até que momento é preciso deixar ela de lado por um momento para chacoalharmos a forma em que estamos conduzindo nossas vidas. Mudança sem desconforto me parece algo que funciona apenas na teoria. 
 
É isso.
Um abraço,
 

GUIA DE SOBREVIVÊNCIA PARA MADRASTAS - MÓDULO 1

Publicado em 28/12/2016

 

Querida madrasta, 

Eu imagino a quantas anda a sua cabeça. Começou um relacionamento com alguém que tem filhos e já percebeu que isso vai exigir bastante de você, não é? Calma. Como disse no post, separe uma garrafa de vodka no congelador - para as que não bebem, um sorvete daqueles mais caros também resolve. Pega o seu senso de humor (você vai precisar dele por todo o processo, por sinal) e vem comigo. Por onde começamos? Pelo que mais importa, naturalmente: as pessoas. 
 

  1. COMECE SABENDO EXATAMENTE ONDE VOCÊ ESTÁ SE METENDO: OBSERVE (BASTANTE. MUITO. O TEMPO INTEIRO.) O PAI.

 
Pensa comigo, qual é a primeira coisa que a candidata à madrasta faz quando inicia um relacionamento com alguém que já foi casado e tem filhos? Te digo, sem medo das pedras: é fuçar os perfis sociais da ex. Colega, é claro que você não está só. Quem nunca fez isso e quem não entende os motivos?
 
Acontece que você está começando pelo canto errado. Talvez não errado, mas certamente o mais improdutivo. Você já parou pra pensar na possibilidade de que, de todas as pessoas que fazem parte desse novo ciclo familiar, a ex ser quem menos importa?
 
“Ai, que blasfêmia!” – não vai falta quem diga. Cê jura?  Eu não acho.
 
Na prática, sabe quem vai definir o quão tranquila vai ser sua vida? Não, não é a ex. Não é a criança. Não são os búzios, nem o tarot: é o pai da criança. Ele mesmo, o seu bofe. O homem que trouxe, do dia pra noite, todo esse mundo novo pra você. A figura do pai é tão importante que é ele, inclusive, que define se você de fato será uma madrasta ou pode passar uma vida sendo só “a amiguinha do papai”.
 
Por isso, os seus olhos devem inicialmente se voltar completamente apenas para essa pessoa: o seu parceiro. Quem é ele? Que tipo de pai ele é? Que tipo de relação ele tem com a criança? Com que frequência ele a vê, e principalmente, quer vê-la? Quanta questão ele coloca em estar presente, voluntariamente, na vida dela? Quais as coisas que ele acredita na educação de um filho? Ele busca colocá-las em prática?
 
Se você souber responder grande parte dessas perguntas, você terá uma boa noção do que te espera. Você vai saber quanto contato terá com essa criança e qual o papel que ela possui na vida desse homem – consequentemente, na sua.
 
Fácil? Sim. Simples? Não.
 
O primeiro gargalo dessa abordagem é: essa observação leva tempo. E leva mais tempo ainda fazer um paralelo entre o discurso do seu parceiro com as ações dele, afinal, todo mundo pode ser paizão da boca pra fora e no facebook.
 
O importante é que você perceba desde o primeiro momento que é essa figura, e somente ela, que possui o controle de todas as pessoas que transitam nessa nova formação familiar: a ex, as crianças e as famílias de cada lado. Se a ex é pirada, acredite, a postura correta do pai da criança consegue te preservar de muitos aborrecimentos. Se a criança é difícil, mas o pai é dedicado a colocá-la nos eixos, a birra poderá ser transitória. E se os valores de criação do pai combinam com os seus, fazer parte desse processo pode se tornar um dia prazeroso, unindo ainda mais vocês como casal.
 
Mas é só?
Não néam, flor.
 
 SIGA OBSERVANDO OUTRA PESSOA MUITO IMPORTANTE NESSA NOVA FASE: VOCÊ MESMA
 
Existe outra pessoa que fará toda a diferença nesse processo, e eu estou olhando para ela. Sim, é você mesma. Umas das melhores heranças que ser madrasta trouxe para minha vida foi a necessidade de olhar para mim mesma e me conhecer. Eu precisei olhar para todos os meus defeitos, inseguranças, medos. Se foi fácil? Jamé, monamu. Foi bem difícil. O que posso dizer é que hoje sou outra pessoa.  Apurei meu senso crítico pra todas as coisas que eu precisava (há tempo) mudar e essa análise foi dolorosa. Ao mesmo tempo, fiz as pazes comigo mesma, em diversos aspectos. Enfrentei minhas inseguranças e o resultado disso foi uma mulher muito mais confiante.
 
Assim sendo, olhe pra você. Pra quem você é, bem de perto. Sem máscaras, ouse escutar o que suas vozes vem andando dizendo pra você em relação à esse novo parceiro. Em relação à essa criança. Em relação à essa ex-mulher.
 
Você acha que se encaixa nesse tipo de família? Você acredita que consegue tornar a relação desse homem com essas crianças ainda mais próxima e mais rica? Você acredita que um dia pode desenvolver com essas crianças algo que gire em torno de pelo menos um sentimento de mútuo respeito?
 
Se a resposta for não, não e não, eu tenho uma coisa pra te dizer: saia.  Sim, saia. Procure alguém solteiro e sem essas amarras. Espere outro príncipe encantado, e pra não dizerem por aí que estou sendo muito dura com você, vou colocar um link de brinquedinhos super úteis pra tornar essa espera divertida. Mas não permaneça na vida dessas pessoas e tente fragilizar um elo entre pais e filhos em prol do seu relacionamento amoroso: madrastas devem ser parte sempre da solução. Se elas não adicionam, elas não deveriam estar ali.
 
Se as respostas forem sim, bacana! Clica nessa outra conversa aqui e vamos iniciar essa jornada. Ela é espinhosa, mas acredite: certamente você tem todas as ferramentas de fazer com que valha a pena, e isso não tem nada a ver com ficar com o seu parceiro pra sempre. Isso tem a ver com o que você leva pro resto da sua vida dessa experiência. 

 
 

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FIM DE UMA ERA 

Publicado em 24/11/2016

 

Samuel,
 
Hoje encerramos uma etapa, uma enorme etapa. Na verdade, o fim do ano e a chegada do Axel vão marcar para sempre em nossas vidas o começo de uma nova fase e, consequentemente, o fim de vários ciclos. Mudaremos de casa, mudaremos de escola, mas principalmente: mudamos para sempre nossas vidas com o teu irmão.
 
Fácil? Não tem sido. Não foram poucas às vezes que me perguntei se daria conta de tanto hormônio e tanta mudança, tamanha é a reforma que estamos todos fazendo em nossas cabeças, em nossos corações e na nossa rotina. Nessa dança, entram todos os membros dessa família: eu, você, seu pai, os cachorros.
 
Te escrevo essa carta pois hoje é teu último dia de aula na tua escola. Percebendo que você não tinha notado esse fato, te lembrei. E esperei para ver como você iria reagir. Um tempo depois, vieram as perguntas. Inevitavelmente, logo vieram as lágrimas.
 
Poucas coisas nessa vida tocam meu gélido coração de péssimadrasta como quando você chora com razão. Quando você chora com medo, e eu entendo o seu medo. Quando você chora de lamento, e eu percebo o seu lamento. Quando você chora de luto, e eu valido o seu luto. Meu coração fica do tamanho da sua vontade de jantar sopa: pequeno. Mínimo.
 
Passou um filme das nossas etapas vividas até então. Percebi que não era apenas uma mudança de escola para você, mas um grande salto no escuro para todos nós. Quando penso que é seu último dia aprendendo valores que não são os nossos, sinto um grande alívio. O que você não sabe, meu bem, é que uma grande parte de mim é também medo.
 
Medo de como esse processo será para você. Medo de que você não se adapte à níveis acadêmicos mais exigentes e de comportamento. Medo de te inserir em um sistema educacional que exige cada vez menos que você seja uma criança, para se tornar só mais uma máquina que conseguirá passar no vestibular. Medo de tudo que será exigido de nós, adultos: financeiramente, de tempo e de energia. Medo que você falhe, medo que nós falhemos: não faltarão dedos para apontar para nós que tudo isso foi insistência nossa e que era melhor como tudo estava, em um local chamado zona de conforto. 
 
Medo, medo, medo! O que é a maternidade/paternidade se não um infindável jogo de erros e acertos, afinal?
 
Acontece, Samuel, que esse sentimento tão temido por todos é o fator comum nos meus melhores acertos. Nos meus melhores projetos. Nos meus melhores voos. Lógico, esteve presente nas piores das quedas também. O que te peço, nesse momento, é que você tenha coragem e talvez um pouquinho de paciência também. Secretamente, me peço o mesmo: coragem. Fé. Repito pra mim mesma: vai dar certo, mulé. Confie. Tenha fibra, criatura – ôxe!
 
Assim, seguimos. Eu sei que as lágrimas hoje continuarão, e elas significam que você tem sido feliz. Elas significam que você tem amigos. E elas significam que você está vivenciando esse processo, tão necessário para o seu crescimento emocional. Trabalharemos bastante para que logo venham os sorrisos. 

da péssimadrasta que fará panquecas de banana com nutella no fim de semana pra você,
 

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MEIA MADRASTA 

* esse texto é uma homenagem à uma amiga madrasta, do início ao fim. 

 

Outro dia uma amiga minha me disse, em tom de confissão: não se sentia madrasta – ‘pelo menos, não da forma que você exerce essa posição’, ela consertou. Completou em uma outra oportunidade dizendo: “eu não consigo nem me ver nesse lugar hierárquico de tutela, de estar no trato direto com a criança, em exigir responsabilidades.”

 

(Não, ela não usou essas palavras bonitas. Eu que dei uma decorada, mas a ideia foi essa)

 

Devo dizer que senti uma ponta de culpa na fala dela.  Como se uma boa madrasta fosse exclusivamente aquela que, como eu, entrasse na linha de frente da educação dos enteados.

 

Eu sou madrasta há 8 anos. O início, muitas sabem, foi uma sucessão de situações embaraçosas e uma vontade enorme de mandar todos à merda, inclusive uma criança que ainda usava fraldas. Colocando em perspectiva de tempo, levou anos para desenvolver com essa criança um relacionamento de afeto genuíno, sem pressões da sociedade, sem foto nas redes sociais, apenas um sentimento verdadeiro no fim do dia quando eu encostava a cabeça no travesseiro e apagava a luz.

 

Essa fala da minha amiga me transportou pra essa fase, inevitavelmente. E eu percebi como ela estava sendo injusta consigo mesma. Eu precisava vir aqui esclarecer pra ela (e muitas outras): a boa madrasta não é aquela que faz as vezes de tutora de uma criança. Para isso, ela tem mãe e pai.

 

A boa madrasta/padrasto é aquela figura que toca no ombro do parceiro e diz que vai ficar tudo bem em um momento de crise, nessa complexa equação de dividir a educação dos filhos com um ex. É aquela pessoa que ouve as angústias do parceiro e permite que ele desabafe (e desabe), sabendo que tem alguém pra dividir o fardo. É alguém que nos muitos momentos de frustração olha fundo nos olhos dele e pede um pouco mais de paciência, só por aquele dia. Ou o contrário também – pode ser aquela pessoa que segura o outro pelos ombros e chacoalha pedindo mais atitude. Que clama que ele saia da zona de conforto e que estimula o diálogo com a outra metade, ou até que a conversa seja levada exclusivamente diante de um juiz.

 

Uma boa madrasta também é alguém que entende que o relacionamento pai/filho é sagrado, vem antes de tudo – e por esse motivo, jamais compete com aquela criança. Ela estimula o parceiro a pagar uma pensão decente, em dia, e faz ele entender que não está fazendo nada mais do que a obrigação. Na verdade, isso é apenas o que um ser humano decente faria, mas abafa.

 

Existem madrastas maravilhosas que atuam dessa forma, ‘nos bastidores’. Me pego pensando se elas percebem o quanto são importantes, cruciais. Eu as aplaudo de pé, pois sei que nos bastidores elas também estão constantemente em uma posição desafiadora dos próprios limites. Eu as aplaudo, pois sei que sem essas mulheres esses homens seriam efetivamente menos pais, pelo simples fato que a nossa sociedade aceita esse tipo de comportamento, ou pelo simples fato de que seria bem mais difícil pra eles exercerem esse papel sem uma figura que segura forte na mão e não foge da peleja. Finalmente,  eu as aplaudo pois sei que as consequências de uma má madrasta na vida de uma criança serão traumatizantes, irreversíveis e carregadas pro resto da vida - de todos os envolvidos.

 

Por fim, mas não menos importante - a boa madrasta secretamente celebra cada pequeno avanço. Ela se emociona com qualquer gesto da criança que a mostre que há evolução naquele relacionamento, que há uma luz no fim do túnel, mesmo que ela tente espantar as lágrimas que teimam em vir quando ela conta aos amigos. Ela, e somente ela, sabe o esforço posto nessa missão. Ela, e somente ela, sabem no mais íntimo do seu eu a origem daquelas lágrimas, mesmo que de alegria.  

 

Se você, assim como a minha amiga - que é uma excelente madrasta, por sinal -  também foi recentemente promovida de “tia” para “meia madrasta”, eu te celebro. Sei que você entra no perfil acima. Tenha só um pouco mais de paciência, um pouco mais de coragem, um pouco mais de fé. A estrada é longa, mas a estrada é válida.   

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GUIA DE SOBREVIVÊNCIA

 


Prezada candidata à madrasta,

Se você já teve oportunidade de adentrar nessa delicada posição familiar, provavelmente se fez algumas perguntas. Eu já te adianto duas respostas: sim, você vai querer desistir, várias vezes. E sim, você vai precisar de ajuda – do divino - e de uma garrafa de vodca!

Mas não, nem tudo são lágrimas. Hoje começa aqui no blog uma série de posts que juntos formam o que eu carinhosamente irei chamar de guia de sobrevivência para madrastas. Perceba: é um guia, não um manual – não vai te dizer o que fazer. Pra ser sincera, são apenas minhas memórias catalogadas e lições aprendidas no caminho, que já dura 8 anos. São sugestões que podem ou não funcionar dentro do contexto que você vivência, e acredite, cada casa é um caso.

Também não serão sugestões tradicionais. Elas virão acompanhadas de debates, problematizações e questionamentos do padrão estabelecido e que nos é imposto. Se você é leitora do blog, já percebeu que aqui acredita-se que madrastas possuem voz, que mães devem cooperar, que pais devem estar no controle de suas posições, e, principalmente, que as crianças sempre virão em primeiro lugar.

Assim sendo, leia de cabeça aberta. Veja o que se adequa a quem você é, ao que você acredita e ao que você quer pra sua vida. Guarde o que vai te ajudar e passe por cima do que não - esse é um processo muito, muito seu.

Se nem guia nem o divino te ajudarem, lembre-se: você tem a garrafa de vodca. 

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ENFIM, UM IRMÃO

 

Publicado em 16/07/2016

 

Samuel,
 
Fazia muito tempo que você pedia por um irmão. Aconteceu, ele está no meio de nós, mesmo que ainda no meu ventre. Em alguns meses, nascerá uma mãe em mim e um irmão em você.
 
Sempre me perguntam por que eu faço o que faço. Por que eu ponho tanta energia na tua educação, por que crio caso e compro brigas que não são minhas. Por anos, a resposta limpa e seca foi: por mim mesma. Para assegurar que terei ritos dentro da minha casa dos quais sempre sonhei, como o simples fato de que todas as pessoas comam do mesmo jantar, juntas.
 
Por anos, a resposta também foi: pelos futuros filhos que podem vir a nascer.  Por querer ter um bom exemplo dentro de casa, de alguém com valores que casassem com os que eu acredito. Um irmão do qual meus filhos pudessem admirar,  respeitar e - principalmente, se conectar.
 
Somente após alguns anos, a resposta foi: pelo Samuel.  Foi somente após desenvolver contigo um relacionamento de amor genuíno, que esse motivo surgiu.  Você sabe muito bem o quanto nós colocamos nosso coração para conseguir esse vínculo: você como criança, eu como adulto. Somente após esse elo que a lista de motivos não só ficou maior, mas como ela ganhou o mais sólido de todos dos propósitos: de ser por você.
 
Por querer que você cresça forte e independente. Que se torne um homem digno e capaz de buscar, incansavelmente, a sua própria felicidade. Pelo simples fato de querer que seu passaporte tenha ainda mais carimbos que o meu.  Por formar um cidadão honrado e alguém que não se faz de vítima, mas que percebe com senso de responsabilidade que estamos sempre exatamente onde nos colocamos.
 
Outro dia, tomando café com uma amiga querida, ela me perguntou: você acha que a madrastagem te preparou melhor para a maternidade? Samuel, ela não percebeu, mas por milésimos de segundos eu me emocionei. Por milésimos de segundos, passou um filme na minha frente.  Eu respondi que sim, que se relacionar com uma criança é basicamente aprender com ela, não o contrário, como todos nós pensamos.
 
Nesse cenário, entra teu irmão. Alguns dizem que demorei para tê-lo, e a sua ansiedade de criança te põe nessa lista. Pois bem, te explico. Eu sempre pensei que ter um filho é a coisa mais louca que alguém pode fazer nessa vida. Não apenas por toda a negação e sacrifício, mas porque entra no mundo mais um personagem, guiado por um tutor: eu.
 
Eu?
 
Eu sempre parava bem aí. Eu nunca havia chegado na pessoa que eu queria ser. Eu não tinha vivido todas as histórias que eu queria pra contar pro teu irmão na hora de pôr ele para dormir.  Eu não havia viajado o mundo suficiente, nem estudado o suficiente, nem trabalhado o suficiente para estar em uma posição em que eu tivesse escolhas, boas escolhas.
 
Foi preciso buscar incansavelmente ter as rédeas da minha vida firmes na minha mão mesmo com toda a vulnerabilidade de ser responsável por um frágil bebê. Em alguns momentos, questionei se a maternidade até faria parte do que eu queria. A vida de uma pessoa em filhos é um corredor com inúmeras portas maravilhosas a serem abertas, me perguntei por um tempo se eu queria abri-las.
 
Nesse meio tempo de indecisão, trabalhei. Estudei. Viajei. Vivi. Me coloquei exatamente no lugar que queria, ou pelo menos próximo dele. Levou tempo e um esforço indescritível que eu farei questão que você vivencie quando chegar a sua hora.
 
Principalmente, foi preciso ser uma pessoa melhor. Bem melhor! Aí entra você. Eu que sempre atribuí ao teu pai o início desse processo, hoje vejo com muita clareza: foi você.  Você são horas de resposta à pergunta despretenciosa da minha amiga. Somente uma posição desconfortável como a de madrasta me levou à mudanças e à um doloroso mergulho em mim mesma que resultou na mínima capacitação de me doar em níveis maiores para a maternidade.  
 
Bem, ainda tenho inúmeros defeitos.  Ainda não viajei para metade dos países que quis. Não falo espanhol e a segunda especialização ainda não veio. Mas teu irmão está entre nós. E é com paz que olho para nossa jornada até então e penso que os dois primeiros motivos que me levaram a ter o papel que eu tenho na tua vida já foram alcançados com louvor, por mérito nosso.  
 
Teu irmão vai vir, meu amor! Teu irmão, não teu meio-irmão. Quem ousar descrever essa relação de vocês dois com a palavra "meio", terá de se entender pessoalmente com a minha ira. 
 
Eu espero que teu irmão herde muito, muito de ti. 

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PREZADA MÃE

 

 

Publicado em 11/06/2016 

 

Prezada Mãe,
 
Aqui quem fala é uma madrasta. Por favor, não se vá. Nós precisamos muito conversar.  É sobre a felicidade dos teus filhos – e sobre a nossa também.
 
Eu sei que nunca fez parte dos teus sonhos ser uma mulher divorciada. Exatamente na mesma proporção, eu nunca sonhei em ser madrasta. Na verdade, eu sempre tive uma péssima impressão sobre essa posição social, até me tornar uma. Foi preciso tempo e esforço para que eu aceitasse com serenidade esse título e, pra ter ser sincera, ele pesa bastante.
 
Mas, vai entender o por quê, a vida reservou exatamente isso para nós duas: o seu casamento acabou, e eu me envolvi com um homem que já havia decidido criar vínculos eternos com alguém antes da minha chegada.  Esse alguém, prezada Mãe, é você.
 
Teremos sempre duas coisas em comum:  esse homem e esses filhos. Nós dividimos ao mesmo tempo o teu passado e o meu futuro.  Mais que isso, dividimos e somos responsáveis pelo futuro dessas crianças – e é aqui que venho me preocupado bastante.
 
Desde que iniciei essa jornada como madrasta, percebi que precisaríamos todos ter duas coisas em comum. Apenas duas. Uma, é a vontade de resguardar o bem estar das crianças envolvidas, amortizando ao máximo a consequência das nossas decisões enquanto adultos na vida delas. A segunda, é estarmos todos decididos a sermos felizes com o plano B de nossas vidas.
 
Simples? Sim. Fácil? Não.
 
Existe uma responsabilidade que pesa toneladas nos ombros de uma madrasta que precisa entender que adentrou um relacionamento amoroso que em momento ALGUM deve sobrepor o relacionamento de um pai com os seus filhos.
 
Acontece, prezada Mãe - que essa mesma responsabilidade recai nos teus ombros: o teu relacionamento amoroso com esse mesmo homem também não.  Estamos exatamente no mesmo patamar e, acredite, para você deveria ser mais fácil. A maternidade supostamente te presenteou com uma afeição e doação sem precedentes por essas crianças que a madrasta simplesmente não possui.
 
As feridas adquiridas nessa relação amorosa ou causadas por esse homem não são transferíveis. Não se comunicam com terceiros. E, principalmente, não o desqualificam como pai. Mais que isso, os defeitos desse homem como companheiro não podem denegrir em momento algum o direito mais básico das tuas crianças de partilhar a infância e a vida com um pai.
 
Eu imagino que soe bastante pretencioso e petulante vir te sugerir como você deve lidar com o fim do teu casamento e com tudo que você passou nesse relacionamento. Como mulher, já passei por alguns términos mas nada que se assemelhasse à dissolução de uma família. Leva tempo, eu imagino.
 
Falando do que efetivamente vivi, eu - como vários por aí, também perdi meu pai para uma nova família. Foi mais difícil do que eu poderia transcrever em palavras e eu não desejo isso para ninguém, muito menos para os teus filhos. Eu não desejo isso para nenhum pai, muito menos para o meu marido.
 
Por isso, te peço:  coloque a felicidade das tuas crianças acima da sua dor. Coloque o bem estar das tuas crianças acima da sua raiva. Coloque a tranquilidade das tuas crianças acima da sua frustação. Coloque o sorriso das tuas crianças acima da tua decepção. Coloque a infância das tuas crianças acima da sua vontade de vingança.  Coloque a integridade emocional das tuas crianças acima de tudo. Não só por elas, mas por você também.
 
E aqui, me refiro ao segundo item que precisamos ter em comum: a vontade de sermos felizes. Precisamos todos estarmos dispostos a virarmos a página, dar outros significados ao que passou, buscarmos novas fontes de momentos alegres – afinal, não estamos sós. Temos companhia.
 
No momento, precisamos com urgência de ti. Precisamos que tu nos ajude a prover para essas crianças dois lares dos quais elas se sintam amadas e seguras, em ambos – não só em um. Precisamos de ti para estender o carinho e o zelo do teu lar para o nosso também. E precisamos de ti para fazermos da nossa caminhada o mais leve possível.
 
Teus filhos em muito te serão gratos.
 
 
Com respeito,
 
Madrasta

 

nota da autora: esse texto se manifesta em mim de forma muito, muito forte – mas em nada se comunica com a minha realidade. dedico ele à todas as mães que nunca precisaram dessa carta para perceber que apoiar uma madrasta é apoiar a felicidade direta de seus filhos (e aqui dedico em especial à mãe do Samuel) e também dedico ele à todas as madrastas que estão tentando estabelecer uma relação serena com as mães de seus enteados. torço bastante por vocês. 

 

MÊS DE MAIO É MÊS DE QUE? 

 

 

SE VOCÊ RESPONDEU “MÃES” OU “NOIVAS”, ERROU. MÊS DE MAIO É MÊS DE CONFUSÃO. 

 

 

Se você possui redes sociais, provavelmente notou que a típica movimentação de Maio já começou: debater sobre o dia das mães e os personagens que possuem o direito de celebrá-lo. De madrastas a tutores que não pariram a cria, sobrou até pra quem se intitula mãe de bicho: não tá fácil pra ninguém. Tá tendo textão sim e tá tendo a necessidade de enquadramento também.

Pois bem, abordamos levemente o tópico aqui. Nesse texto, conversamos sobre aquela velha mania da sociedade em definir um relacionamento familiar mesmo sem participar dele, focando especificamente em madrastas. Com o advento do dia das mães, percebi que isso não é exclusivo da nossa classe. E falando em madrastas, joguei pra elas a discussão. O retorno foi implacável: por que deveria uma madrasta celebrar o dia das mães? (Quase) Ninguém viu sentido algum.

Antes de tudo, é preciso ressaltar que a minha indignação com esse tipo de abordagem não nasce de uma insatisfação com a minha própria história. Samuel possui uma mãe em um papel claro e definido. Ela é comprometida, presente e um sólido pilar na vida dele. Em momento algum os papéis “mãe” e “madrasta” se tocam, se invertem ou se confundem. Mas falo por muitas, muitas outras. Falo por madrastas e qualquer outra posição que venha amortizar a falta de uma mãe na vida de um pequeno.

Você consegue imaginar o buraco que é a ausência de uma mãe na vida de uma criança? E você consegue medir a grandiosidade de uma mulher/homem que se doa em níveis maternais para alguém que a natureza não presentou com toda a escolha e química preparatória de uma gravidez?

Já vi madrastas-mãe: porque a criança tem mãe, que só tem olhos pra pensão. Já vi avós-mãe: que mexem o mingau e balançam o menino enquanto a filha curte uma festinha, só que todo dia. Já vi pais-mãe: porque a mãe quis ir embora, e foi. Já vi babás-mãe: porque a mãe nunca está e se está não quer estar pra criança. Enfim, já vi diversas pessoas-mãe e sei que você já viu também. Se juntar as histórias que você viu com as que eu vi, ninguém sai mais daqui hoje.

Qual a necessidade de enquadrar o relacionamento dessas famílias, como se cada uma coubesse em uma gaveta? Pior, qual a necessidade de afirmar que não se pode atribuir a elas um agrado no dia das mães, “pois não são mães”? Afinal, o que define o que é ser mãe?  
 
Em uma discussão sobre as “mães de bicho”, categoria da qual eu orgulhosamente me enquadro, vi um punhado de mães dizer que era absurdo querer atribuir o título mãe para um bicho. Que o nível de dedicação entre um filho e um animal não se compara.

(Fiquei pensando quem em sã consciência acha que se compara, mas abafei o caso)

Várias entendiam que pessoas se afeiçoam enormemente por um animal, mas que usar o termo “mãe” era ofensivo.

(Fiquei pensando que algumas pessoas se ofendem com muito pouco, mas abafei denovo)

O que eu não abafei foram minhas dúvidas: se as tutoras de animais passam a se chamar dessa forma, o que muda na luta das mães? Qual a necessidade de se lançar do conceito mãe somente pela ótica do dicionário? Dos padrões? Da Biologia? Do que a bíblia diz? Em um mundo em que animais ocupam lugares afetivos enormes em suas famílias, já existe termo a altura que descreva aquela relação?

Diante dessas indagações, uma pessoa se limitou a responder apenas: “não é sobre o amor”

Foi aí que eu percebi a fonte da discordância. Em relação a bichos, madrastas ou qualquer outro parentesco. Só então percebi a distância entre as opiniões e pude ser clara no meu posicionamento: se não é sobre amor, não sobra absolutamente nada.

Sendo mais clichê impossível, o amor é tudo. É nossa capacidade de ter e demonstrar afeto que faz nossos relacionamentos interpessoais humanos. Caso contrário, mães serão apenas parideiras. Homens serão apenas reservas de esperma. E por mais que isso soe radical, é esse tipo de ideologia que nos leva para ideias ainda mais estapafúrdias, como: família é feita apenas de pai e mãe. Dois pais ou duas mães não cabe. Mãe sem pai não cabe.

Aí você vira pra mim e diz: “ah, que exagero”. Exagero? Essa loucura foi votada na Câmara e virou nossa legislação com massivo apoio da sociedade. Em 1920? Não, ano passado. Aqui o link pros incrédulos.

Por isso, suplico: pensem fora da caixa. Abracem ideias mais amplas do que é ser mãe. Permita que outros personagens da vida de uma criança recebam reconhecimento em um dia tão bonito e sejam celebrados à altura. Consuma de empresas que veiculam outras formas de configuração de família e que vendam produtos que satisfaçam a necessidade dessas pessoas. Estejam atentos e se questionem sobre os padrões que são enfiados goela abaixo - da nossa e dos nossos filhos. O mundo muda a cada segundo e nós precisamos seguir esse movimento, mas que o movimento seja pra frente. Que seja libertário. Que promova igualdade e inclusão.

E, por último mas não menos importante: se um dia você quiser definir algo e pra isso seja preciso desconsiderar o amor, reflita. Reflita bastante.
 
Feliz dia das mães, ______________. (E aqui, fique a vontade pra preencher com o grau de parentesco que se encaixar no que você vive e na sua verdade.)

O FILHO NÃO É SEU 

 

Publicado em 07/04/2016

​Onze entre dez madrastas já ouviram essa célebre máxima em algum momento da sua trajetória. Algumas concordaram, outras respiraram aliviadas, e poucas fazem parte do meu time: não gostaram.

Não, eu não gosto de ouvir isso. Primeiro, porque é um insulto à inteligência de quem ouve: ela explica o óbvio. E por mais que nós estamos constantemente ouvindo e dizendo outros óbvios por aí (“ela é sua mãe, só quer o seu bem”), olhe pra essa frase de perto. Bem de pertinho. Vamos lá, tire a lupa da gaveta e analise comigo.

Quem te disse isso? Com quais intenções? O que essa pessoa realmente queria te dizer? Pra mim, essa frase é carregada com a tentativa de desestabilizar emocionalmente uma madrasta. Nós geralmente a ouvimos quando estamos nos queixando de uma situação, ou quando não concordamos como as coisas estão sendo levadas pelos pais da criança. Ao sermos críticas, levantarmos questões, ao discordarmos: pode esperar que já já a frase é plantada no meio da sua testa. Claro, ela também é falada bastante nas suas costas.

Eu já ouvi isso das minhas melhores amigas. Da irmã, da mãe. Várias vezes. Falando da alimentação do Samuel e das minhas aflições, das minhas brigas com o marido. Da minha vontade de criar caso com o mundo. Ouvi pelo whatsapp e pessoalmente: “amiga, ele não é seu filho. Deixa pra lá. Quando você tiver os seus, você faz.”

Ah tá.

Fico pensando onde fica o bem da criança nesses momentos. Será que fator sanguíneo nessas horas fala mais alto do que assegurar que as melhores decisões estão sendo feitas em prol do pequeno? A intenção não é relativizar, diminuir, desmoralizar ou competir com a outra metade, geralmente a mãe. A intenção é debater por que a madrasta tem que ouvir frases como a de cima quando fala das suas discordâncias e das suas preocupações. Por que isso soa tão ofensivo? Por que não pode a madrasta pleitear que o que ela acredita também seja levado em consideração?

Essa criança em formação, afinal, será irmão/irmã dos seus filhos. As escolhas de hoje dos pais  influenciarão diretamente no exemplo que os seus futuros filhos terão e na rotina da casa. Deve a madrasta então só pegar a pipoca, o óculos 3D e assistir tudo sentada, pensando:  “Ah, deixa pra lá. O filho nem é meu. Quando tiver roubando banco eu me meto na história.” 

É isso que esperam da gente?  Sério?

(Pausa para se recompor. Mas sério, é isso? Ok, parei.)

(Mudança repentina de assunto pois a cota polemic do post já esgotou) 

Outro motivo pelo qual eu acho que você deve pensar bastante antes de apontar seu dedinho e dizer para uma madrasta que ela não é a mãe daquela criança é: vivemos em um mundo em que mães são pais, avós são mães, babás são mães, pais são mães. O mundo mudou, jovem. As relações familiares vem aos poucos acompanhando essas mudanças. E mesmo nos casos tradicionais em que mães são mães e pais são pais (que é o meu caso, obrigada Universo), ainda acho que você deve pensar bastante. Só quem sabe o que acontece dentro de uma família, é a família. Não tem foto feliz no facebook que conte como as coisas são feitas na vida real.

Outro dia li um post de uma madrasta dizendo que deixou a filha (A FILHAAAAAAAAA - pros que se apegam forte ao fator sanguíneo) em casa para levar os dois enteados maiores com o marido a Disney.

Gente. Sério.  É visível o esforço emocional que aquela mulher estava fazendo em não levar a garotinha (que era muito nova) para não atrapalhar a experiência dos dois enteados. É visível que foi sofrido e que foi preciso um desapego das entranhas em não prover isso para a própria filha. É visível que em um dado momento ela precisou ser racional e perceber que os enteados precisavam dessa doação. E, acima de tudo, é visível perceber que foi por amor. Incondicional? Não. Totalmente condicionado, conquistado. Com esforço, com renúncia, com doação e com choro antes do embarque.   
Você vai apontar o dedo pra ela e dizer que ela não é mãe desses meninos? Eu não faria isso. É descortês, é insensível e acima de tudo: é escroto. E mesmo apesar disso ser pregado no blog dela, acho que precisamos rever esse hábito. Por respeito às intenções dessa madrasta e por respeito a tudo que ela faz silenciosamente por aquelas crianças. Por respeito a todas as brigas com o marido e todas as renúncias que ela fez e que fará por toda a vida.

Por respeito. Por empatia. Por gentileza.

Assim sendo, eu sugiro que você pegue seu dedo e.. aponte pra você. Reflita por que você precisa dizer isso pra alguém. Reflita quais suas intenções. E se as suas intenções forem boas, reflita sobre as intenções da madrasta. Se elas forem boas e visarem o bem de uma criança, apoie. Ou fique calado. Mas não atrapalhe – ou seja insensível.
 
 
 nota de rodapé bastante necessária
** um grande número de madrastas vai discordar desse posicionamento. algumas mulheres preferem se manter em uma posição menos incisiva e de menos confronto, pois, afinal o filho não é delas. eu as entendo e eu as aplaudo. eu espero apenas que o texto desperte que a única pessoa que pode dizer o papel que essas mulheres desempenham em suas famílias são elas mesmas. mais ninguém.

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OS DOIS LARES EM TODOS NÓS

 

Publicado em 01/04/2016


Antes de começar esse texto, faça um exercício comigo. Feche seus olhos, respire fundo e mentalize seus filhos. Caso você não os tenha (e deseje ter), projete a imagem deles como gostaria. Agora, pense em todas as coisas que você gostaria de ensinar (ou ensinou/ensinará) a essas crianças. Suas crenças, sua religião, seus princípios, as coisas que você acredita com mais força. Pense também nas coisas que você rejeita e em escolhas que você não faria para eles, combinado? 

Pensou?  Bacana.

Você já pensou como seria não conseguir pôr boa parte disso em prática? Você já pensou que, em uma separação, as decisões de como criar os filhos advindos daquela união podem vir a serem tomadas unilateralmente?

Se você nunca pensou nisso, pode ser que comece agora. 

 

Sempre leio na internet a respeito da influência dos dois diferentes lares que filhos de pais separados possuem. A rotina é aquela de sempre: um eterno leva e traz de coisas.  Terça do futsal, as chuteiras estão na casa da mãe. Quinta de aula de violão, mas o violão ficou no pai. Pequenos nômades, talvez?
 
A opinião pública e os especialistas se dividem entre quem concorda e quem discorda. Uns contra, outros a favor: a discussão é frequente. O fenômeno das famílias mosaico é uma realidade mundial e se expande a largos passos: quem hoje em dia fica preso em um casamento infeliz?
 
Não me venha com aquele dizer que “antes consertavam o quebrado ao invés de jogar fora”. Um relacionamento não é a minha máquina de lavar roupa que quebrou semana passada e me custou R$500 pra consertar. É algo infinitamente mais complexo. Quem vai apontar o dedo e entrar no mérito do que levou duas pessoas a terem filhos e se separarem depois? Você?
 
Acontece que sim, acontece. As pessoas se separam. Não é um processo rápido, fácil, muito menos indolor.  É um processo que geralmente deixa um rastro de destruição visível a olho nu, por mais consensual que tenha sido.  Em casos bem sucedidos, cada um recolhe seus cacos (emocionais e físicos) e estabelecem-se em uma nova casa. Com o tempo, cria-se um novo lar.  Ou melhor, dois. Dois lares. Dois lares pelos quais as crianças transitam livremente. Nômades? Não são. Possuem estabilidade física e emocional em ambos. Mas são, e sempre serão, dois lares.
 
Um lar é algo complexo. São tijolos, parede, um pinguim em cima da geladeira. Mas também são valores, crenças, opiniões. Regras, rotinas, religiões. Um lar é opção sexual, é como a gente passa o nosso café. É o que a gente come, assiste e ouve.  Se existem diferenças entre os lares dos pais, as crianças transitarão por elas. E os adultos?
 
Os adultos são os protagonistas dessas diferenças.  São eles que definem as diretrizes do lar que construíram ao longo da vida: a si próprios. Ao invés de tijolos, crenças. Ao invés de alicerce, experiências. Ao invés de janelas, perspectivas.
 
Será que a grande problemática é a criança ter duas camas e dois tetos ou é o fato de que os pais terão que enfrentar de forma civilizada as diferenças que possivelmente os levaram a concluir que são incompatíveis como casal?
 
Na minha experiência, é a segunda opção. Dividir a educação de uma criança envolve, de uma forma ou de outra, unidade: é preciso atuar de forma conjunta com o ex-parceiro. E isso irá demandar negociação constante com uma pessoa que pode ter parâmetros bem diferentes. Hábitos opostos. Acreditar em outras coisas. Querer outros valores que não casam com os seus. 
 
Se não há unidade, também não haverá manutenção. O trabalho de alguém que tenta implementar uma alimentação saudável é triplicado se no outro lar tem sempre uma coca-cola aberta na geladeira, ou simplesmente não se ingere legumes e frutas. É difícil ensinar o desapego material se há excesso no consumo de presentes do outro lado. Estimular a criatividade e amor ao esporte torna-se um desafio se a criança dispõe de TV e videogame de última geração em livre oferta na outra casa.
 
Por mais que se busque um meio termo, embaixo do seu teto cada um faz o que quer. E aí existe uma carga de frustação cada vez que a criança se vai, pois a sensação é de que o trabalho daquele dia será perdido. Alguém já passou por isso com outras questões?
 
A lista de possibilidades é enorme. Que temos que trabalhar sempre na aceitação das escolhas que fazem essas crianças realmente felizes isso é fato.  Casados ou divorciados, os pais educam seus filhos sabendo que os mesmos tomarão decisões que são inerentes somente ao que eles desejam, e não ao que nós esperamos deles - a questão não é essa. A questão é como os pais que dividem a educação da criança lidam com as pequenas frustações em não conseguirem aplicar o que sempre sonharam em passar aos seus filhos.
 
Esse texto nasceu no dia em que assisti à primeira comunhão do Samuel, sentada em um banco de igreja. Não, eu sou católica. Meu marido é ateu. Por 40 minutos, celebramos uma decisão que jamais seria nossa.  A que custo? Alto, altíssimo – mais do que caberia nas entrelinhas desse texto. Mas temos dois lares. Duas religiões. Crenças distintas. Criações diferentes. Vários pequenos lutos ainda virão, para ambos os lados. E é na delicada equação de equilíbrio que mora a problemática de várias famílias como a minha: em retraçar a rota. Estabelecer novas formas de repassar o seu DNA emocional. Ter leveza quando a sua forma de funcionar não encontrar espaço com uma que diga exatamente o contrário.  Aprender com as diferenças. Medir com frieza na balança até onde a sua aceitação é benéfica para aquela criança. Ter dois lares é um ciclo que sempre envolve essas constantes.

Quantos lares construíram quem você é?

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MÁDRASTA 

 

 

Publicado em 25/02/2016

 

Vocês já ouviram falar da expressão bonitinha “boadrasta”? Acho louvável (e fofa!) a iniciativa de enfraquecer a má impressão que os filmes da Disney nos deixaram, que madrastas são pessoas de índole ruim.

 

​Às vezes sobra pra mim. Quando digo que sou madrasta, vez ou outra prontamente me corrigem: “madrasta não, você é boadrasta”.  Eu fico naquela sem saber o que dizer. Será que revelo quem sou? Geralmente respondo só com um risinho amarelo.

Mas aqui, cá entre nós, posso dizer: sou boadrasta não, querido. Sou MÁdrasta mesmo. Daquelas bem péssimas, do tipo exportação de tanta maldade. Quando o Samuel tiver idade pra ler isso aqui, com certeza vai confirmar pra vocês.

Sou péssima quando digo pra ele que o tempo do vídeo game acabou. Sou cruel quando tiro a TV e o videogame pra que ele se envolva em ócio criativo.  Sou chata quando entro no quarto pra dar beijo de boa noite e mando ele se levantar porque sei que ainda não escovou os dentes. Sou perversa porque me recuso a todo custo a deixar o uniforme do colégio dobrado, por ordem de uso, pronto na cama. Sou sem coração, pois acho que 8 anos é idade suficiente pra ser responsável por arrumar a mochila do período integral.

Sou intragável quando coloco frutas de lanche. Quando faço sopa de legumes para o jantar. Quando todo almoço de domingo digo: comece pelas folhas. Sou explosiva quando criticam nas minhas costas esse tipo de alimentação. Sou violenta quando colocam lingüiça com farofa pra ele almoçar ao invés de uma refeição decente para uma criança que está em pleno desenvolvimento. Sou impaciente quando a didática de incluir alimentos saudáveis se esgota, e vai pela obrigação de comer mesmo.

Sou sem noção quando marco a mãe em postagens da quantidade de açúcar presente em alimentos industrializados. Forço a barra quando marco até a avó. Sou inconveniente quando esqueço da falta de parentesco sanguíneo: se é pelo bem dele, passo por cima até do Papa. Mando recado pra diretora da escola, no meu nome. Assino embaixo, dou a cara à tapa – pode falar da minha audácia por aí. Sou intolerante quando julgo as decisões da mãe, mesmo sabendo que julgar uma mãe é um ato bastante cruel. (obrigada, textões!) Sou detalhista quando corrijo o português e o inglês. Sou difícil quando peço pra ele escrever uma redação de 15 linhas, sem motivo algum.

Sou detestável quando peço pra ele descer com o lixo. Pra ajudar a pôr a comida dos cachorros. Quando faço ele tirar o prato da mesa desde que percebi que já havia coordenação motora pra tal. Sou atacada quando fiquei batendo palmas energicamente pra ele não desistir na primeira queda de bicicleta (nem na segunda, terceira, nem na décima). Sou nervosinha quando o pai não está 100% no controle da sua posição.  Sou radical se não concordo com uma pilha de jogos esquecidos no armário. Sou louca se questiono com ele se os brinquedos devem ficar mofando ali, ao invés de fazer uma criança carente um pouco menos carente.

Enfim, sou ruim. Um poço de azedume. Louca, atacada, estrambólica. O Darth Vader em forma de madrasta. Má, má, má. E apesar de não me orgulhar de uma parte da lista, a minha essência é essa: de por várias vezes ser a vilã. Falta equilíbrio? Ô. Mas esse foi o papel que assumi, por vários motivos, junto desse ser que eu acompanho desde os 2 anos.

Sobre as consequências disso? Aí é tema pra outro post. 

Beijos enfeitiçados,

(insira gargalhada maléfica aqui)  

​N. Oliveira

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CARTA #011

 

 

Publicado em 20/02/2016 

 

 

Minha irmã,
 
Aconteceu. E foi com você. Por ser com você, é comigo também. Em meio à tantos momentos felizes, acabou. Ou está acabando. E por ser com você, e comigo também, isso me dá uma perspectiva tão assustadora que tenho vontade de editar cada texto já escrito por mim aqui sobre famílias que acabam e outras que começam. Eu não tenho respostas sobre os seus medos, sobre a sua posse, sobre o seu luto, sobre o seu cansaço. Desassocio de mim a identidade de madrasta. Essa palavra, por sinal, nunca me causou tanto temor.  A quem devemos esperar a chegada?
 
Mesmo sabendo que uma hora tudo ficará bem, é difícil testemunhar o teu processo - mesmo sabendo o quanto é necessário, me toma por completo a incapacidade de te prover acalento. Quando te peço que não se apavore, secretamente peço o mesmo a mim também.
 
Algumas vidas passam pela nossa como um tornado: mudam absolutamente tudo de canto. Nossas crenças, opiniões, nossa energia. O rastro que deixam é visível. Cabe a nós recolocarmos cada pedra em seu lugar: um novo lugar. Cabe a nós darmos propósito ao que passou. Cabe a nós sermos felizes! Talvez não hoje, nem amanhã. Mas um dia sim.
 
Estaremos junto de ti por todo o processo. 
 
Com fé,
 
LT.
 
Minha pequena homenagem a famílias que se encerram. Logo eu, que sempre olhei pelo prisma das novas famílias que se formam. Tudo vai muito além do que nossos olhos alcançam, não é? Tudo vai muito além da nossa limitada perspectiva. 

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TRAGAM A LUPA PARA OLHAR A MADRASTA PASSAR

 
 

Publicado em  14/01/2016


​Outro dia um leitor (acho chique) veio me perguntar por que tanta ênfase nas madrastas. Ora, se é sabido que ambos homens e mulheres passam pelo percalço de se relacionarem com pessoas que possuem filhos de outro relacionamento – por que não uma abordagem mais ampla?

Fiquei pensando, sabe. É verdade. Os homens precisam ser contemplados também. Um dia. Não hoje. Amanhã, talvez?

Eu explico: nós, mulheres, passamos por um processo inicial bem mais agressivo. Da sociedade, das nossas famílias, de nós mesmas.

Lembro como se fosse hoje o dia que tentei contar pra minha mãe que estava me relacionando com um homem divorciado, pai de uma criança de quase dois anos. Foi literalmente um dos piores dias da minha vida e da dela também. Foi um processo de alguns meses, até o início de uma tímida aceitação.

A primeira pergunta que ouvi (aos berros, como não ouviria) foi se eu tinha a ver com aquela separação. Ouvir isso de quem mais me conhece nessa vida não foi fácil, muito menos justo.  E por meses a fio tive que ouvir coisas similares. Mesmo nunca tendo falado um oi com a criatura, minha mãe era expert em dizer que ele não prestava. Que era fase, que quando eu piscasse ele voltava com a esposa – não era a ex-esposa, era a esposa. O bom e velho: ele só quer te comer, minha filha. Um clássico da literatura moderna, da qual eu era a protagonista.

Lógico, existem madrastas que contam para suas mães sobre seus relacionamentos com homens que foram casados e as duas saem saltitando de mãos dadas em direção ao pôr do sol, mas não venham me dizer que essa é a regra geral**. Não é.

E isso, estimado leitor (novamente: acho chique), foi apenas o que tive que passar com a minha mãe. Uma pessoa. “A” pessoa. Uma pessoa de uma sociedade de muitas pessoas. Pelo simples e puro fato de estar me relacionando com alguém divorciado e com um filho SIM, mas não só por isso, não mesmo. Passei por isso por simplesmente ser.. mulher.

Ah, como a nova namorada do papai sofre. Onde ela for, vai ser olhada dos pés à cabeça. Primeiro, é analisada pela aparência física. Se ela é mais feia que a ex, ninguém entende a ‘troca’. Se ela é mais bonita, o ex só pensa na aparência física, que horror! Aquilo ali nela é uma celulite? Tragam a lupa aí, por favor!

Depois, as pessoas analisam quanto tempo depois da separação ela surgiu. Foi próximo? Se foi colega, pode esperar chumbo grosso. Até da sua mãe. Ah, tem coisa aí sim. Ninguém larga uma esposa e filho à toa, não é? Se segura aí que os comentários agora vão ser sobre a sua índole, e eles não serão nada amigáveis.   

Falando na esposa, essa geralmente é elevada ao posto de santa após a separação.  Todos nós esperamos que ela seja muito feliz e consiga alguém que dê o real valor desta maravilhosa mulher. Tadinha, não merecia isso.

Quem é que pára pra pensar que esse casamento que acabou era feito de duas pessoas adultas, vacinadas e cientes do que vinha acontecendo? Quem é que lembra que em um relacionamento as duas partes são co-responsáveis SIM em suas devidas proporções por um eventual fim? Ninguém. Quando a ex encontra um bofe pra chamar de seu, ela recebe palmas! Viva! Deus é bom! Posta logo aí no seu instagram, miga!

E é aí que os padrastos entram. Em um cenário mais amigável, digamos. Nisso, os homens ganham e muito só pelo fato de serem homens. Mais uma vez as coisas são mais fáceis pra eles. Começando dentro de casa mesmo: a mãe, o pai. Para um filho homem, provavelmente vão dizer: use camisinha. Para a filha mulher, você volta no 5º parágrafo e lê novamente o que acontece.

A questão aqui não é o mérito em ser bom/ruim padrasto. A questão é: as madrastas geralmente enfrentam mais reprovação, mais resistência, mais julgamento. E sabe quem geralmente aponta o dedo? Outras mulheres. Sororidade nessas horas cala fundo, passa longe. 

Ser padrasto é difícil? Muito. Assustador? Demais. Nisso estamos juntos, cada um com os desafios que nos pertencem. Contudo não podemos negar as diferenças de todo um contexto por trás de quando essas duas figuram passam a existir. Seria negar todos os olhares que recebi, todos os julgamentos que me foram impostos, todas as brigas para minha mãe aceitar um homem que hoje ela tem como filho.

Por isso, maravilhosos padrastos*, no momento eu falo diretamente para as madrastas. É algo muito pessoal, sabe? É muito pelo fato de que algumas coisas só as mulheres vão entender, pois só elas passam por isso. Mas eu preciso dizer que sou fã incondicional de vocês. E já já conversamos, de brother pra brother, já tô até gelando a cerva e fritando a lingüiça. Só não vou comer, pois aquela celulite que viram lá em cima era minha mesmo. #tafoda

Combinado?

*É bacana ressaltar que não existe regra geral. Não existe verdade absoluta. Homens passam por situações de julgamento, como mulheres. O texto é direcionado para uma parcela que passou pela mesma situação que eu ou que testemunham diferentes tratamentos dado a homens e mulheres. Entendemos que existem exceções. Mais que isso, abraçamos-as. Elas fazem nossa vida muito mais rica.

Foto 1: O namorado da mamãe é geralmente visto assim

Foto 2: A namorada do papai geralmente é visto assim

Foto 3: E essas são as pessoas que não sabem nada do seu relacionamento! 

FICA. VAI TER BOLO. 

 

 

Publicado em 22/12/2015 

 

Poucas coisas nessa vida são tão desengonçadas quanto um canhoto usando um abridor de latas e uma mulher recém-feita madrasta. A gente não sabe nem onde pôr as mãos. Em uma fila qualquer, é quase inevitável não ouvir de um desconhecido: “seu filho está te chamando”, ou “seu filho é lindo”.
 
Levanta a mão aí a madrasta que já causou leve desconforto nos outros quando respondeu que ele não é seu filho – é seu enteado. Parece bobo, mas o que mais ouvimos na sequência é:

  1. Ah, mas ele é a sua cara! (Quando claramente não é..)
  2. Ah, mas é a mesma coisa (Quando claramente não é!)


​Bem, a boa notícia é: você ainda vai se divertir com isso. Por incrível que pareça, você ainda vai sentir empatia por essas pessoas tentarem fazer com que aquela situação seja a mais natural possível para elas. E você vai precisar de um (bocado) de tempo para que essa situação seja natural para você.
 
Ninguém nasce querendo ser madrasta. Ninguém. No início, parece que algo não deu certo na sua vida. Por mais ridículo que soe, é exatamente assim. E não só para você: para sua família também. Seus amigos. A pessoa que serve o seu café. Até seu cachorro começa a te olhar diferente, vai por mim. Por que isso teve que acontecer justamente com você?
 
Se você está exatamente nesse momento, eu tenho outra boa notícia: passa. Mas não é fácil. Ser madrasta é viver o início de um relacionamento de uma forma totalmente diferente. Aquele momento inicial da euforia, das borboletas na barriga, do tesão à flor da pele e do descobrimento virão acompanhados de um outro mix de sentimentos, e muito provavelmente de encontros com a Peppa pig cantarolando ao fundo. O sonho de toda mulher, certamente.
 
 Constantemente você vai colocar em cheque se você realmente quer passar por isso por alguém que você acabou de conhecer - e com toda razão. As chances de você mesma sabotar o relacionamento simplesmente pela complexidade do caminho que se abre na sua frente são enormes.
 
Mas calma, não se vá. Ainda, pelo menos. Fica, vai ter bolo.
 
Comecemos pelo começo: você só saberá o quanto de madrasta vai ter que ser observando o quanto o seu parceiro é, efetivamente, pai daquela(s) criança(s). E isso faz total diferença no papel que você vai desempenhar.
 
Ele participa das decisões sobre a vida dos filhos? Troca fraldas? Pega as crianças na mesma proporção que a mãe? Paga as despesas na proporção que o diz respeito? Vai à reunião da escola? Assoa o nariz do menino quando não tem guardanapo por perto?
 
Caso você tenha respondido: não, não e não, respire aliviada. O grau de complexidade da situação cai drasticamente. Se ele não é pai, você também não é madrasta. Simples assim. Mas não se engane. Se por um lado é mais fácil lidar superficialmente com a criança agora, saiba que caso esse homem venha a ser o pai dos seus filhos, estes também terão um pai que terceiriza a criação. É isso que você quer?
 
Caso você tenha respondido sim pra maioria das perguntas, querida madrasta, saiba: essa criança será, a partir de agora, parte do seu relacionamento e da sua rotina. Muitas vezes ela será o centro, o norte, a prioridade. É ela que algumas vezes vai dizer se o carnaval vai ser na praia ou em casa.
 
E sim, por mais que você admire o caráter do homem que agora está ao seu lado, exatamente por ele ser assim, vão ter dias que você vai querer quebrar o DVD infantil em pedaços e ter seu bofe só pra você, pra fazer coisas com ele que a Peppa ficaria horrorizada.
 
Diante desse cenário, como decidir should I stay or should I go? Que mulher que não treme nas bases quando ouve “eu tenho filho”? Que mulher que não diz pra si mesma, naquele momento, que dessa criatura ela vai passar bem longe, por que a vida já é complicada demais?
 
Várias. Muitas. Eu, diga-se de passagem, tentei ser uma delas. Sete anos depois, ainda estou aqui, e quero muito ficar. No final, o que conta realmente é quem é esse homem (ou mulher) pelo qual você se apaixonou.
 
Como essa pessoa toca o teu coração? Qual o esforço que ele coloca para facilitar esse processo para você? Quão fiel é ele ao compromisso que fez, mesmo estando com outra mulher? – E aí, lógico, me refiro aos filhos.
 
Filho é promessa, compromisso. É jura com a mão esquerda erguida, de uma vida inteira. Mais que isso, filho é sagrado. É essencial perceber que a maioria dos desgastes entre você e seu parceiro giram (ou vão girar) do fato de que ele está honrando com o compromisso que fez, com essas crianças. Como não se compadecer? Como não estimular sempre, cada vez mais, esse vínculo? Como não aplaudir?
 
Madrasta.. o universo colocou uma(s) pessoa(s) na tua vida. Relacionar-se com ela vai exigir muito de você, mais do que eu poderia colocar em um texto de um blog. Essa é a hora de olhar para dentro, e perceber como essa pessoa toca teu coração.
 
Se ela vale a pena, fica. Com medo, mas fica. Adentra o caminho que se abre na tua frente e caminha, um passo por vez. Segura na mão desse parceiro e oferece o teu melhor eu para tornar esse trajeto rico para todos os envolvidos. Se você cambalear ou cair, pede apoio também. E se por ventura você quiser sair, saia.
 
A experiência vai ter te levado em cantos que você jamais sonhou que iria pisar. Você vai colocar luz em sombras suas que você jamais teve coragem de pôr. Vão ter dias de vitórias, outros de derrotas. Mas fica. Come desse bolo. A vida é rara.
 
Com coragem,
 
N. Oliveira

** texto dedicado às amigas m. e m. <3

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PRECISAMOS FALAR DESSA CAMADA INDESEJÁVEL DA SOCIEDADE: AS MADRASTAS.


Publicado em 29/11/2015


Você é madrasta? Aposto que você é. Aposto que você também já percebeu que não é fácil, jogou ajuda no google e veio parar aqui. Tudo bem, já estive aí. Ainda estou, na verdade. 
 
Ser madrasta é.. difícil. É provar que Shakespeare sempre esteve errado, pois é ser e não ser, ao mesmo tempo. É ter ônus sem o devido bônus.  É participar intensamente na vida da criança e cantar os parabéns do lado de cá da mesa. É passar o domingo inteiro estudando com ela, e a professora não ter noção do seu nome. É ouvir constantemente: “quero ver quando for com seus filhos”. É contar para suas amigas que está tendo dificuldades em inserir legumes na dieta do pequeno e, por isso, tendo desgastes com a mãe da criança e ter zero apoio, apenas ouvir: “o filho não é seu”.
 
É verdade, o filho não é meu. Acreditem: toda madrasta sabe disso. E pasmem: não, nós não queremos que o filho seja nosso. O perfil da família brasileira há algum tempo vem mudando. As famílias mosaico são uma realidade e o retrato do fato de que as pessoas buscam sim felicidade em um segundo ou terceiro casamento. Com essa mudança, o perfil das madrastas também mudou. Elas são mais jovens, elas são atraentes, mas a principal mudança é: elas se importam com a criança. Bastante.
 
Ao mesmo tempo, ser madrasta é embarcar em uma jornada rumo ao seu melhor eu. Jornada espinhosa, eu diria, mas significa também ter em sua vida a presença de uma criança da qual você irá se afeiçoar enormemente. É se ver nela,  reconhecer suas falas, suas falhas. É a possibilidade de significar bastante na vida de alguém, de forma pura e muito, muito, merecida.
 
 Existem vários temas que assolam o universo de uma madrasta. Temos inúmeros deveres, que envolvem grandes responsabilidades, mas pouco (zero) se fala sobre os nossos direitos. O assunto é quase tabu. Como falar de direitos para as madrastas sem soar abusiva? Petulante? Que direitos afinal recaem sobre essa presença importantíssima na vida de uma criança que recentemente teve sua estabilidade destruída?
 
Pesquisando sobre o tema, colocando no google as palavras chaves: “vou pular de janela” – Brinks, pesquisando sobre essas questões, me deparei com inúmeras listas de “como ser uma boa madrasta, em 10 passos”. Fiquei pensando em quem escreve esse tipo de baboseira. Levam-se anos para ter coragem de começar a responder essa pergunta. São lágrimas, brigas homéricas com o marido, sessões de terapia, com as amigas. Me desculpem, jamais vou engolir esse tipo de abordagem "simplinha".  

O primeiro item da lista, em unanimidade, é: “você não é a mãe”.
 
Cê jura? Não tinha notado! 
 
Para algumas madrastas, isso não faz a me-nor diferença. Nada. Dependendo do pai da criança, a madrasta vê aquela criança a cada 15 dias. Leva na piscina no clube, almoça bife com batata frita e entrega de volta pra mãe, banhado – pela babá.  Mas e quando o pai da criança se faz presente dia sim dia não, fim de semana sim, fim de semana não? Quando aquela criança sempre foi e sempre será parte integrante da sua família, dos seus hábitos, da sua rotina?
 
Como se isentar a sangue frio do que você espera daquela criança como pessoa, futuro cidadão, irmão dos seus filhos (os SEUS filhos)? Como sentar, cruzar os braços e esperar que a mãe e o pai da criança levem em consideração  o que VOCÊ, madrasta,  almejou como família?  
 
Em todos esses anos sendo madrasta (7 anos), essas perguntas sempre me acompanharam. Aonde está a linha tênue que define até onde uma mulher deve se abster das decisões que vão influenciar diretamente na vida e rotina dela? Até onde ela deve observar em silêncio, quando há discordância? E caso ela deseje se pronunciar, como deverá fazê-lo? O bem da criança geralmente está acima ou abaixo dessas regras sociais?
 
Como eu falei lá em cima, o assunto é polêmico. Me colocando nos lugares das mães, imediatamente me transporto para uma postura defensiva, como não? É impossível, mães – eu entendo. Mas precisamos falar sobre isso. Madrastas, nós precisamos refletir sobre isso. Precisamos definir para nós mesmas, respeitando o cenário individual que cada uma vive, como lidar com esse tipo de questão.
 
O diálogo está só começando. 

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