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FICA. VAI TER BOLO. 

Poucas coisas nessa vida são tão desengonçadas quanto um canhoto usando um abridor de latas e uma mulher recém-feita madrasta. A gente não sabe nem onde pôr as mãos. Em uma fila qualquer, é quase inevitável não ouvir de um desconhecido: “seu filho está te chamando”, ou “seu filho é lindo”.
 
Levanta a mão aí a madrasta que já causou leve desconforto nos outros quando respondeu que ele não é seu filho – é seu enteado. Parece bobo, mas o que mais ouvimos na sequência é:

  1. Ah, mas ele é a sua cara! (Quando claramente não é..)
  2. Ah, mas é a mesma coisa (Quando claramente não é!)


​Bem, a boa notícia é: você ainda vai se divertir com isso. Por incrível que pareça, você ainda vai sentir empatia por essas pessoas tentarem fazer com que aquela situação seja a mais natural possível para elas. E você vai precisar de um (bocado) de tempo para que essa situação seja natural para você.
 
Ninguém nasce querendo ser madrasta. Ninguém. No início, parece que algo não deu certo na sua vida. Por mais ridículo que soe, é exatamente assim. E não só para você: para sua família também. Seus amigos. A pessoa que serve o seu café. Até seu cachorro começa a te olhar diferente, vai por mim. Por que isso teve que acontecer justamente com você?
 
Se você está exatamente nesse momento, eu tenho outra boa notícia: passa. Mas não é fácil. Ser madrasta é viver o início de um relacionamento de uma forma totalmente diferente. Aquele momento inicial da euforia, das borboletas na barriga, do tesão à flor da pele e do descobrimento virão acompanhados de um outro mix de sentimentos, e muito provavelmente de encontros com a Peppa pig cantarolando ao fundo. O sonho de toda mulher, certamente.
 
 Constantemente você vai colocar em cheque se você realmente quer passar por isso por alguém que você acabou de conhecer - e com toda razão. As chances de você mesma sabotar o relacionamento simplesmente pela complexidade do caminho que se abre na sua frente são enormes.
 
Mas calma, não se vá. Ainda, pelo menos. Fica, vai ter bolo.
 
Comecemos pelo começo: você só saberá o quanto de madrasta vai ter que ser observando o quanto o seu parceiro é, efetivamente, pai daquela(s) criança(s). E isso faz total diferença no papel que você vai desempenhar.
 
Ele participa das decisões sobre a vida dos filhos? Troca fraldas? Pega as crianças na mesma proporção que a mãe? Paga as despesas na proporção que o diz respeito? Vai à reunião da escola? Assoa o nariz do menino quando não tem guardanapo por perto?
 
Caso você tenha respondido: não, não e não, respire aliviada. O grau de complexidade da situação cai drasticamente. Se ele não é pai, você também não é madrasta. Simples assim. Mas não se engane. Se por um lado é mais fácil lidar superficialmente com a criança agora, saiba que caso esse homem venha a ser o pai dos seus filhos, estes também terão um pai que terceiriza a criação. É isso que você quer?
 
Caso você tenha respondido sim pra maioria das perguntas, querida madrasta, saiba: essa criança será, a partir de agora, parte do seu relacionamento e da sua rotina. Muitas vezes ela será o centro, o norte, a prioridade. É ela que algumas vezes vai dizer se o carnaval vai ser na praia ou em casa.
 
E sim, por mais que você admire o caráter do homem que agora está ao seu lado, exatamente por ele ser assim, vão ter dias que você vai querer quebrar o DVD infantil em pedaços e ter seu bofe só pra você, pra fazer coisas com ele que a Peppa ficaria horrorizada.
 
Diante desse cenário, como decidir should I stay or should I go? Que mulher que não treme nas bases quando ouve “eu tenho filho”? Que mulher que não diz pra si mesma, naquele momento, que dessa criatura ela vai passar bem longe, por que a vida já é complicada demais?
 
Várias. Muitas. Eu, diga-se de passagem, tentei ser uma delas. Sete anos depois, ainda estou aqui, e quero muito ficar. No final, o que conta realmente é quem é esse homem (ou mulher) pelo qual você se apaixonou.
 
Como essa pessoa toca o teu coração? Qual o esforço que ele coloca para facilitar esse processo para você? Quão fiel é ele ao compromisso que fez, mesmo estando com outra mulher? – E aí, lógico, me refiro aos filhos.
 
Filho é promessa, compromisso. É jura com a mão esquerda erguida, de uma vida inteira. Mais que isso, filho é sagrado. É essencial perceber que a maioria dos desgastes entre você e seu parceiro giram (ou vão girar) do fato de que ele está honrando com o compromisso que fez, com essas crianças. Como não se compadecer? Como não estimular sempre, cada vez mais, esse vínculo? Como não aplaudir?
 
Madrasta.. o universo colocou uma(s) pessoa(s) na tua vida. Relacionar-se com ela vai exigir muito de você, mais do que eu poderia colocar em um texto de um blog. Essa é a hora de olhar para dentro, e perceber como essa pessoa toca teu coração.
 
Se ela vale a pena, fica. Com medo, mas fica. Adentra o caminho que se abre na tua frente e caminha, um passo por vez. Segura na mão desse parceiro e oferece o teu melhor eu para tornar esse trajeto rico para todos os envolvidos. Se você cambalear ou cair, pede apoio também. E se por ventura você quiser sair, saia.
 
A experiência vai ter te levado em cantos que você jamais sonhou que iria pisar. Você vai colocar luz em sombras suas que você jamais teve coragem de pôr. Vão ter dias de vitórias, outros de derrotas. Mas fica. Come desse bolo. A vida é rara.
 
Com coragem,
 
N. Oliveira

** texto dedicado às amigas m. e m. <3