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O FILHO NÃO É SEU

ublicado em 07/04/2016

​Onze entre dez madrastas já ouviram essa célebre máxima em algum momento da sua trajetória. Algumas concordaram, outras respiraram aliviadas, e poucas fazem parte do meu time: não gostaram.

Não, eu não gosto de ouvir isso. Primeiro, porque é um insulto à inteligência de quem ouve: ela explica o óbvio. E por mais que nós estamos constantemente ouvindo e dizendo outros óbvios por aí (“ela é sua mãe, só quer o seu bem”), olhe pra essa frase de perto. Bem de pertinho. Vamos lá, tire a lupa da gaveta e analise comigo.

Quem te disse isso? Com quais intenções? O que essa pessoa realmente queria te dizer? Pra mim, essa frase é carregada com a tentativa de desestabilizar emocionalmente uma madrasta. Nós geralmente a ouvimos quando estamos nos queixando de uma situação, ou quando não concordamos como as coisas estão sendo levadas pelos pais da criança. Ao sermos críticas, levantarmos questões, ao discordarmos: pode esperar que já já a frase é plantada no meio da sua testa. Claro, ela também é falada bastante nas suas costas.

Eu já ouvi isso das minhas melhores amigas. Da irmã, da mãe. Várias vezes. Falando da alimentação do Samuel e das minhas aflições, das minhas brigas com o marido. Da minha vontade de criar caso com o mundo. Ouvi pelo whatsapp e pessoalmente: “amiga, ele não é seu filho. Deixa pra lá. Quando você tiver os seus, você faz.”

Ah tá.

Fico pensando onde fica o bem da criança nesses momentos. Será que fator sanguíneo nessas horas fala mais alto do que assegurar que as melhores decisões estão sendo feitas em prol do pequeno? A intenção não é relativizar, diminuir, desmoralizar ou competir com a outra metade, geralmente a mãe. A intenção é debater por que a madrasta tem que ouvir frases como a de cima quando fala das suas discordâncias e das suas preocupações. Por que isso soa tão ofensivo? Por que não pode a madrasta pleitear que o que ela acredita também seja levado em consideração?

Essa criança em formação, afinal, será irmão/irmã dos seus filhos. As escolhas de hoje dos pais  influenciarão diretamente no exemplo que os seus futuros filhos terão e na rotina da casa. Deve a madrasta então só pegar a pipoca, o óculos 3D e assistir tudo sentada, pensando:  “Ah, deixa pra lá. O filho nem é meu. Quando tiver roubando banco eu me meto na história.” 

É isso que esperam da gente?  Sério?

(Pausa para se recompor. Mas sério, é isso? Ok, parei.)

(Mudança repentina de assunto pois a cota polemic do post já esgotou) 

Outro motivo pelo qual eu acho que você deve pensar bastante antes de apontar seu dedinho e dizer para uma madrasta que ela não é a mãe daquela criança é: vivemos em um mundo em que mães são pais, avós são mães, babás são mães, pais são mães. O mundo mudou, jovem. As relações familiares vem aos poucos acompanhando essas mudanças. E mesmo nos casos tradicionais em que mães são mães e pais são pais (que é o meu caso, obrigada Universo), ainda acho que você deve pensar bastante. Só quem sabe o que acontece dentro de uma família, é a família. Não tem foto feliz no facebook que conte como as coisas são feitas na vida real.

Outro dia li um post de uma madrasta dizendo que deixou a filha (A FILHAAAAAAAAA - pros que se apegam forte ao fator sanguíneo) em casa para levar os dois enteados maiores com o marido a Disney.

Gente. Sério.  É visível o esforço emocional que aquela mulher estava fazendo em não levar a garotinha (que era muito nova) para não atrapalhar a experiência dos dois enteados. É visível que foi sofrido e que foi preciso um desapego das entranhas em não prover isso para a própria filha. É visível que em um dado momento ela precisou ser racional e perceber que os enteados precisavam dessa doação. E, acima de tudo, é visível perceber que foi por amor. Incondicional? Não. Totalmente condicionado, conquistado. Com esforço, com renúncia, com doação e com choro antes do embarque.   
Você vai apontar o dedo pra ela e dizer que ela não é mãe desses meninos? Eu não faria isso. É descortês, é insensível e acima de tudo: é escroto. E mesmo apesar disso ser pregado no blog dela, acho que precisamos rever esse hábito. Por respeito às intenções dessa madrasta e por respeito a tudo que ela faz silenciosamente por aquelas crianças. Por respeito a todas as brigas com o marido e todas as renúncias que ela fez e que fará por toda a vida.

Por respeito. Por empatia. Por gentileza.

Assim sendo, eu sugiro que você pegue seu dedo e.. aponte pra você. Reflita por que você precisa dizer isso pra alguém. Reflita quais suas intenções. E se as suas intenções forem boas, reflita sobre as intenções da madrasta. Se elas forem boas e visarem o bem de uma criança, apoie. Ou fique calado. Mas não atrapalhe – ou seja insensível.
 
 
 nota de rodapé bastante necessária
** um grande número de madrastas vai discordar desse posicionamento. algumas mulheres preferem se manter em uma posição menos incisiva e de menos confronto, pois, afinal o filho não é delas. eu as entendo e eu as aplaudo. eu espero apenas que o texto desperte que a única pessoa que pode dizer o papel que essas mulheres desempenham em suas famílias são elas mesmas. mais ninguém.