profile.png

O OUTRO LADO DA MESA

Publicado em 20/12/2017

 

Outro dia pensei seriamente em me separar. Me desculpe a falta de sutileza logo assim no início do texto, sem aviso prévio nem lubrificante - mas aconteceu. Em um relacionamento que caminha pro seu décimo ano, nada mais natural do que a vontade de pegar a rota teoricamente mais fácil quando as diferenças e o cansaço batem de frente.

 

Com a impulsividade infantil que me pertence, decidi: me separaria. Deitei a cabeça no travesseiro e planejei onde moraria. Avaliei se os custos cabiam dentro das minhas possibilidades. Planejei o impacto de um divórcio no meu desempenho profissional. Ensaiei dividir a notícia com a família e amigos. Me preparei para os protestos que certamente viriam, respondendo mentalmente um por um. Então, e só então, pensei nos meus filhos – dois, pois estou grávida novamente.

 

Me perguntei como seria meu futuro ex-marido como pai em voo solo, sem a minha presença ao lado explicando o choro do bebê ou acordando pra confirmar a suspeita de que um deles estava com febre de 39o na madrugada. Me questionei se confiava nas pequenas decisões que ele tomaria sem a minha educação montessoriana-construtivista-diferentona por perto. Vislumbrei quem ele escolheria para ficar ao seu lado e que tipos de valores éticos e morais norteariam a pessoa com a qual ele viria a dividir a vida – consequentemente, meus filhos.

 

Algumas das respostas me tiraram o chão. Algumas das possibilidades fizeram meu sistema endócrino secretar muitas doses de adrenalina no meu sangue: de medo, de raiva. Em menos de 5 minutos me fazendo perguntas e as respondendo nos piores cenários possíveis, me vi na sala de audiência, bradando a plenos pulmões perante um juiz que os filhos são meus, somente meus. Não achando suficiente, considerei mentalmente a possibilidade de embarcar com as duas crianças para fora do país com uma autorização de viagem falsificada caso o juiz decretasse a guarda compartilhada – o riso hoje é livre, aproveitem.

 

Foi nesse momento que o chão verdadeiramente se abriu diante dos meus pés: em menos de 5 minutos de um cenário puramente imaginário, eu havia me tornado a mãe do texto “prezada mãe” - simples assim. Logo eu. Logo esse texto. Sentei na cama tamanho o horror que essa constatação e assim permaneci por um longo tempo digerindo o que tinha acontecido.

 

Eu sempre soube que me tornar mãe culminaria em um grande processo de desconstrução e isso era algo que eu temia fortemente. Que ideias viriam a cair por terra? Que crenças, que valores, quais pilares eu testemunharia ruir do dia pra noite? Por todos esses anos, eles haviam me sustentado firmemente até ali. Por todos esses anos, eles definiram o tipo de madrasta que eu escolhi ser. Como seria analisar todas essas variáveis agora conhecendo o outro lado da moeda?

 

Devo dizer que as minhas amigas já mães e leitoras ávidas deste blog esperaram pacientemente por este dia com a pipoca e o óculos 3D em mãos. Elas sabiam que alguns desses valores, ideias e crenças muito possivelmente eram meras teorias por não ter eu vivenciado ainda a maternidade. Elas sabiam que ser mãe traria uma profundidade sem precedentes e que sentar do outro lado da mesa seria revolucionário.

De fato, foi. E foi tão revolucionário que escrever aqui tornou-se difícil: era preciso agora pesar casa palavra, imaginar outros cenários, me colocar no lugar de todos os envolvidos. Com esse processo, muitos textos foram parar no lixo.

 

A ideia da separação na manhã seguinte passou. Mas o que senti naquela noite, não – ficou comigo, firme. Reli o texto “prezada mãe” e reiterei em cada palavra o quanto ele era forte, coerente, atual, necessário – um dos mais lidos aqui, por sinal. Onde havia eu falhado para ter me tornado, mesmo que por cinco minutos apenas, na protagonista desse texto? Do que seria capaz me sentindo animal encurralado, com as crias embaixo da asa? Quão prejudicado seria meu senso de justiça e o quanto capaz seria eu de julgar o que efetivamente é importante para os meus filhos estando ferida com uma separação?

 

Confrontada com minhas próprias respostas, senti uma profunda vergonha do fato de que julguei essas mulheres, até as mais desequilibradas. Percebi que havia sido por vezes rasa em meus apontamentos e que tinha ignorado a máxima de que cada caso é um caso. A maternidade me fez enxergar que ser mãe, por vezes, é perder completamente a racionalidade, o fio da meada, a noção de certo e errado. Quem sou eu para dizer para essas mulheres, o que elas devem ou não devem fazer em relação ao caos que se tornou suas vidas?

 

A verdade é que eu não sou ninguém. A verdade é que posso apenas imaginar como deve ser dividir a tutela dos seus filhos separadamente com alguém que você não confia inteiramente. A verdade é que, por cinco minutos, em nada fui diferente dessas mulheres das quais tanto julguei. Mas é também igualmente verdade que essas mulheres precisam de ajuda, de contraponto, de um lembrete de que não podemos simplesmente ceder à irracionalidade da passionalidade do nosso amor de mãe. Não podemos justificar os nossos absurdos para com nossos próprios filhos sob a justificativa de que os amamos incondicionalmente. Não podemos, não devemos. Não seria justo com eles, muito menos conosco: é preciso resistir e voltar nosso olhar para nós mesmas. Que habilidades precisaremos desenvolver para voltarmos a ser felizes? Que habilidades temos que buscar para que eles passem por isso da melhor forma possível?

 

Percebi nesses cinco minutos que, caso divórcio consumado, teria eu que aprender à navegar com lucidez nas águas das minhas próprias tormentas. Esse é um processo tão individual, tão internalizado e tão íntimo que possivelmente levaria bastante tempo. Possivelmente, eu cometeria um punhado de erros na busca pelo acerto. Possivelmente, alguém de fora escreveria uma carta com o título “prezada mãe” me descrevendo, enquanto a calmaria não chega.

 

Hoje, como mãe, louvo essa outra mãe que está no processo de tentar e errar. Se ela está desperta da parte que lhe cabe na situação em que se encontra, ótimo. É o início de uma longa caminhada. Hoje, como madrasta, louvo meu texto. Continuo assinando embaixo de cada letra dele. Li ele sendo a mãe fugindo com os filhos de uma guarda compartilhada e rapidamente ele me trouxe ao eixo. Ele me lembrou que mesmo na irracionalidade do amor sem medidas pelos filhos, lucidez é fundamental – pelo bem deles, e pelo nosso também.