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O ANO DAS PEQUENAS GRANDES DESISTÊNCIAS

Publicado em 04/01/2018

 

Desistir. Palavra pejorativa, não? Uma escolha, inquestionavelmente. O ato de descontinuar um determinado fazer, pensar, crer. Dependendo do fazer, pensar e crer precisará ser mais que um ato: precisará ser um hábito. O hábito de descontinuar um comportamento com raízes que possivelmente são grossas e profundas.

 

2018 veio e trouxe essa decisão: a da renúncia. Cabalístico (e irônico) perceber que esse momento coroa os exatos 10 anos em que sou a madrasta do Samuel. Não teve bolo de comemoração, mas teve presente: o presente das pequenas grandes desistências.

 

Quantas vezes, em 10 anos, iniciei esse processo? Incontáveis. Muitas. Mas desistir sempre foi uma palavra proibida no meu dicionário. Sempre acreditei (e acredito) no poder da teimosia, do querer, do não aceitar. Sempre acreditei no questionamento das verdades do senso comum, na incoerência frequente das hierarquias, no ato de rebelar-se e na reinvindicação das coisas que são justas e certas. Minha mãe, coitada, todo dia se pergunta onde foi que errou.

 

Por 10 anos, eu quis muito mudar muitas coisas nas pessoas que estavam ao redor do Samuel. E mesmo nos dias em que eu via o tamanho da impossibilidade de mudar alguém, me era impossível assimilar a tão famosa aceitação e conformidade que me era sugerida sem a menor cerimônia por tanta gente diferente.

 

Conforme-se, aceite. Desista – essas palavras doíam no meu ouvido. Eu sabia que as consequências seriam graves demais e eu sabia que a única pessoa que as conhecia era eu. Se de um lado me diziam que o filho não era meu, do outro eu sabia que sim, que ele era e que ele sempre seria. Eu sabia que a única pessoa que entendia esse conceito distorcido de maternidade seria eu, afinal homens que são efetivamente pais são rara exceção no mundo de hoje. E sendo exceção, eu sabia que esse mesmo mundo não entenderia a especificidade do que eu vivia.

 

Foi aí que percebi que esse processo de equilíbrio seria guiado essencialmente por uma pessoa, uma pessoa apenas: eu mesma. Com minhas próprias pernas, construído com as minhas próprias mãos. Quantas vezes ouvi “não faça”,“não diga”, “não sinta”- e eu fiz, disse, senti. Fiz, e me arrependi. Disse, e ouvi de volta. Senti, e foi doloroso. Seria clichê dizer que não faria nada diferente, até porque eu faria. O tempo trouxe a percepção de que quando se tem o temperamento de um cavalo indomado, cada uma dessas experiências foram passos necessários.

 

Assim, muitos anos depois, chego na escolha de desistir. Desisto de mudar as pessoas. Desisto de trazer os dois polos opostos que regem a vida do Samuel para o centro, mas me responsabilizo de fazer esse caminho do meu lado de forma mais genuína. Desisto das horas debatendo sobre coisas das quais não tenho jurisdição. Desisto de mostrar à todos que rodeiam o Samuel da consequência de seus atos, suas escolhas, seus valores. Desisto das horas tentando convencer o meu marido a também não desistir.

 

Nesse processo, também aceito. Aceito que a personalidade do Samuel será influenciada de formas das quais não aprovo. Aceito que isso tornará meu fardo mais pesado pois eu nunca escolho o caminho mais fácil. Aceito os momentos de negligência da mãe e aceitarei os momentos de negligência do pai. Aceito que ele não é meu filho. Aceito que o conceito do que é melhor para uma criança é subjetivo. Aceito que não estou sempre certa. Aceito a hierarquia que rege as relações familiares. E aceito o fato de que posso me tornar a madrasta simplesmente escolhe fechar suas portas para as escolhas feitas por uma mãe e um pai ao longo da vida de um filho.

 

Desisto, aceito. Por uma vida mais leve? Não, leveza não combina muito comigo. Sou movida à desafios, acumulo funções, acumulo trabalhos, sou fã de um dedo na ferida – dos outros, das minhas. Mas desisto e aceito porque precisava crescer, amadurecer. Desisto e aceito porque o conceito de tempo mudou depois que me tornei mãe: tornou-se escasso, raro. Percebi que preciso viver mais, melhor.

 

Sou grata que consegui ser essa madrasta que fui esses 10 anos. Consegui louros e feitos que jamais teria caso a aceitação e a desistência tivessem entrado na minha vida antes. Olho para a trajetória e vejo o caminho que percorri: cheio de erros, rompantes, atropelos – tão eu. Por vezes movido por ego, por vezes movido por raiva – tão eu. Movido por uma personalidade que não diz meias palavras e é incapaz de ser política – tão eu.

 

Mas também movido pela tentativa de acertar. Pela vontade enorme de conseguir. Movido pela constatação de que nossos atos nesses 10 anos repercutiram intrinsicamente na pessoa que o Samuel diariamente constrói, e que a infância dele foi fase decisiva em sua formação. Movido por Montessori, Steiner, Mário Cortella, Paulo Freire, pelo feminismo, pelos meus antepassados. Pela ambição de querer que ele seja muito além de mim, do pai e da mãe. Inquestionavelmente, movido por amor – e em tempo algum haverá força mais sutil que gire esse mundo louco que vivemos.

 

Isso sem dúvidas não apaga as falhas e tropeços do caminho, mas o torna único. Meu, tão meu. Lindo! Fez de mim humana, tentante, errante e essencialmente triunfante. Não só porque Samuel carregará por toda sua vida o resultado do meu esforço, mas porque em todos esses anos dei absolutamente o meu melhor nesse processo – e isso me permite encerrar essa fase com um sorriso no rosto, uma mente em silêncio e a maravilhosa sensação de dever cumprido.

 

Para todas as madrastas nesse processo, o meu abraço apertado. Empoderem-se, sempre - e só depois, façam suas próprias escolhas dos seus próprios processos.

 

Com amor,

 

Naira