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PRECISAMOS FALAR DESSA CAMADA INDESEJÁVEL DA SOCIEDADE: AS MADRASTAS.

Publicado em 29/11/2015


Você é madrasta? Aposto que você é. Aposto que você também já percebeu que não é fácil, jogou ajuda no google e veio parar aqui. Tudo bem, já estive aí. Ainda estou, na verdade. 
 
Ser madrasta é.. difícil. É provar que Shakespeare sempre esteve errado, pois é ser e não ser, ao mesmo tempo. É ter ônus sem o devido bônus.  É participar intensamente na vida da criança e cantar os parabéns do lado de cá da mesa. É passar o domingo inteiro estudando com ela, e a professora não ter noção do seu nome. É ouvir constantemente: “quero ver quando for com seus filhos”. É contar para suas amigas que está tendo dificuldades em inserir legumes na dieta do pequeno e, por isso, tendo desgastes com a mãe da criança e ter zero apoio, apenas ouvir: “o filho não é seu”.
 
É verdade, o filho não é meu. Acreditem: toda madrasta sabe disso. E pasmem: não, nós não queremos que o filho seja nosso. O perfil da família brasileira há algum tempo vem mudando. As famílias mosaico são uma realidade e o retrato do fato de que as pessoas buscam sim felicidade em um segundo ou terceiro casamento. Com essa mudança, o perfil das madrastas também mudou. Elas são mais jovens, elas são atraentes, mas a principal mudança é: elas se importam com a criança. Bastante.
 
Ao mesmo tempo, ser madrasta é embarcar em uma jornada rumo ao seu melhor eu. Jornada espinhosa, eu diria, mas significa também ter em sua vida a presença de uma criança da qual você irá se afeiçoar enormemente. É se ver nela,  reconhecer suas falas, suas falhas. É a possibilidade de significar bastante na vida de alguém, de forma pura e muito, muito, merecida.
 
 Existem vários temas que assolam o universo de uma madrasta. Temos inúmeros deveres, que envolvem grandes responsabilidades, mas pouco (zero) se fala sobre os nossos direitos. O assunto é quase tabu. Como falar de direitos para as madrastas sem soar abusiva? Petulante? Que direitos afinal recaem sobre essa presença importantíssima na vida de uma criança que recentemente teve sua estabilidade destruída?
 
Pesquisando sobre o tema, colocando no google as palavras chaves: “vou pular de janela” – Brinks, pesquisando sobre essas questões, me deparei com inúmeras listas de “como ser uma boa madrasta, em 10 passos”. Fiquei pensando em quem escreve esse tipo de baboseira. Levam-se anos para ter coragem de começar a responder essa pergunta. São lágrimas, brigas homéricas com o marido, sessões de terapia, com as amigas. Me desculpem, jamais vou engolir esse tipo de abordagem "simplinha".  

O primeiro item da lista, em unanimidade, é: “você não é a mãe”.
 
Cê jura? Não tinha notado! 
 
Para algumas madrastas, isso não faz a me-nor diferença. Nada. Dependendo do pai da criança, a madrasta vê aquela criança a cada 15 dias. Leva na piscina no clube, almoça bife com batata frita e entrega de volta pra mãe, banhado – pela babá.  Mas e quando o pai da criança se faz presente dia sim dia não, fim de semana sim, fim de semana não? Quando aquela criança sempre foi e sempre será parte integrante da sua família, dos seus hábitos, da sua rotina?
 
Como se isentar a sangue frio do que você espera daquela criança como pessoa, futuro cidadão, irmão dos seus filhos (os SEUS filhos)? Como sentar, cruzar os braços e esperar que a mãe e o pai da criança levem em consideração  o que VOCÊ, madrasta,  almejou como família?  
 
Em todos esses anos sendo madrasta (7 anos), essas perguntas sempre me acompanharam. Aonde está a linha tênue que define até onde uma mulher deve se abster das decisões que vão influenciar diretamente na vida e rotina dela? Até onde ela deve observar em silêncio, quando há discordância? E caso ela deseje se pronunciar, como deverá fazê-lo? O bem da criança geralmente está acima ou abaixo dessas regras sociais?
 
Como eu falei lá em cima, o assunto é polêmico. Me colocando nos lugares das mães, imediatamente me transporto para uma postura defensiva, como não? É impossível, mães – eu entendo. Mas precisamos falar sobre isso. Madrastas, nós precisamos refletir sobre isso. Precisamos definir para nós mesmas, respeitando o cenário individual que cada uma vive, como lidar com esse tipo de questão.
 
O diálogo está só começando.