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PREZADA MÃE

Publicado em 11/06/2016 

 

Prezada Mãe,
 
Aqui quem fala é uma madrasta. Por favor, não se vá. Nós precisamos muito conversar.  É sobre a felicidade dos teus filhos – e sobre a nossa também.
 
Eu sei que nunca fez parte dos teus sonhos ser uma mulher divorciada. Exatamente na mesma proporção, eu nunca sonhei em ser madrasta. Na verdade, eu sempre tive uma péssima impressão sobre essa posição social, até me tornar uma. Foi preciso tempo e esforço para que eu aceitasse com serenidade esse título e, pra ter ser sincera, ele pesa bastante.
 
Mas, vai entender o por quê, a vida reservou exatamente isso para nós duas: o seu casamento acabou, e eu me envolvi com um homem que já havia decidido criar vínculos eternos com alguém antes da minha chegada.  Esse alguém, prezada Mãe, é você.
 
Teremos sempre duas coisas em comum:  esse homem e esses filhos. Nós dividimos ao mesmo tempo o teu passado e o meu futuro.  Mais que isso, dividimos e somos responsáveis pelo futuro dessas crianças – e é aqui que venho me preocupado bastante.
 
Desde que iniciei essa jornada como madrasta, percebi que precisaríamos todos ter duas coisas em comum. Apenas duas. Uma, é a vontade de resguardar o bem estar das crianças envolvidas, amortizando ao máximo a consequência das nossas decisões enquanto adultos na vida delas. A segunda, é estarmos todos decididos a sermos felizes com o plano B de nossas vidas.
 
Simples? Sim. Fácil? Não.
 
Existe uma responsabilidade que pesa toneladas nos ombros de uma madrasta que precisa entender que adentrou um relacionamento amoroso que em momento ALGUM deve sobrepor o relacionamento de um pai com os seus filhos.
 
Acontece, prezada Mãe - que essa mesma responsabilidade recai nos teus ombros: o teu relacionamento amoroso com esse mesmo homem também não.  Estamos exatamente no mesmo patamar e, acredite, para você deveria ser mais fácil. A maternidade supostamente te presenteou com uma afeição e doação sem precedentes por essas crianças que a madrasta simplesmente não possui.
 
As feridas adquiridas nessa relação amorosa ou causadas por esse homem não são transferíveis. Não se comunicam com terceiros. E, principalmente, não o desqualificam como pai. Mais que isso, os defeitos desse homem como companheiro não podem denegrir em momento algum o direito mais básico das tuas crianças de partilhar a infância e a vida com um pai.
 
Eu imagino que soe bastante pretencioso e petulante vir te sugerir como você deve lidar com o fim do teu casamento e com tudo que você passou nesse relacionamento. Como mulher, já passei por alguns términos mas nada que se assemelhasse à dissolução de uma família. Leva tempo, eu imagino.
 
Falando do que efetivamente vivi, eu - como vários por aí, também perdi meu pai para uma nova família. Foi mais difícil do que eu poderia transcrever em palavras e eu não desejo isso para ninguém, muito menos para os teus filhos. Eu não desejo isso para nenhum pai, muito menos para o meu marido.
 
Por isso, te peço:  coloque a felicidade das tuas crianças acima da sua dor. Coloque o bem estar das tuas crianças acima da sua raiva. Coloque a tranquilidade das tuas crianças acima da sua frustação. Coloque o sorriso das tuas crianças acima da tua decepção. Coloque a infância das tuas crianças acima da sua vontade de vingança.  Coloque a integridade emocional das tuas crianças acima de tudo. Não só por elas, mas por você também.
 
E aqui, me refiro ao segundo item que precisamos ter em comum: a vontade de sermos felizes. Precisamos todos estarmos dispostos a virarmos a página, dar outros significados ao que passou, buscarmos novas fontes de momentos alegres – afinal, não estamos sós. Temos companhia.
 
No momento, precisamos com urgência de ti. Precisamos que tu nos ajude a prover para essas crianças dois lares dos quais elas se sintam amadas e seguras, em ambos – não só em um. Precisamos de ti para estender o carinho e o zelo do teu lar para o nosso também. E precisamos de ti para fazermos da nossa caminhada o mais leve possível.
 
Teus filhos em muito te serão gratos.
 
 
Com respeito,
 
Madrasta

 

nota da autora: esse texto se manifesta em mim de forma muito, muito forte – mas em nada se comunica com a minha realidade. dedico ele à todas as mães que nunca precisaram dessa carta para perceber que apoiar uma madrasta é apoiar a felicidade direta de seus filhos (e aqui dedico em especial à mãe do Samuel) e também dedico ele à todas as madrastas que estão tentando estabelecer uma relação serena com as mães de seus enteados. torço bastante por vocês.