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VANGUARDA

Publicado em 26/05/2017

 

Vanguarda. Outro dia parada no trânsito essa palavra veio pra mim. Assim, do nada – não me pergunte o por quê. Entre um sinal vermelho e outro, fiquei me perguntando o que significava até que joguei no google e tive uma enorme epifania  em relação a esse blog.
 
Vanguarda: a guarda avançada ou a parte frontal de um exército. Palavra amplamente empregada metaforicamente que defende o movimento de  ruptura de modelos preestabelecidos, defendendo formas antitradicionais. Aclamação do novo, exploração das fronteiras do experimentalismo.
 
É isso! É exatamente isso - eu pensei, enquanto os carros buzinavam pra que eu me locomovesse. Esse blog não só é pautado pela história da minha família, que sim, é uma enorme exceção nas famílias mosaico.  Esse blog fundamentalmente é pautado e suportado por ideias vanguardistas: simples assim. Que paz que senti, criaturas.
 
Desde o primeiro texto é claro e palpável que esse blog pede encarecidamente: rompa com os conceitos do que é ser madrasta. Rompa com as  ideias do que define uma família. Rompa com as crenças formadas em algumas dezenas de anos em como se relacionar com crianças, ou qual a posição de um homem e uma mulher na formação delas.
 
Rompa. Eu sei que não é fácil, mas tente: o mundo mudou. Algumas dessas ideias podem não mais caber no que vivemos atualmente, enquanto sociedade.  Algumas dessas ideias não mais abraçam todas as famílias, então rompa com elas. Muitos desses conceitos não priorizam o bem estar de crianças, então não os considere.
 
Chegou a hora de revermos tudo, de revermos tanto. Separações não são mais a exceção, são quase a via de regra. É inegável que essa é e será a realidade de tantas famílias: dos meus filhos, talvez.  Quem que garante a eternidade de um relacionamento entre duas pessoas? Absolutamente ninguém. Se isso acontecer, que crenças vão me ajudar a proporcionar um ambiente de transição para essas crianças?
 
A verdade é que eu não tenho as respostas. A verdade que esse é um assunto que deve ser abordado com empatia e sensibilidade, sim. A verdade é que essa forma não se aplica à todos os casos, não. O cerne da questão aqui não é dar uma receita de bolo para que pessoas sigam felizes em um momento escroto como uma separação, jamais.
 
A questão é: no que você tem se apegado nesse processo? E as pessoas ao teu redor? E os profissionais que você escolheu para fazer parte da tua vida, que pensam eles? Esse universo de pessoas possuem crenças são excludentes ou inclusivas?
 
Já fui tratada com desdenho por uma diretora de escola que achava que madrasta não era da família e não poderia tratar de assuntos pedagógicos, mesmo com o aval de ambos os pais. A ex do meu marido já foi chamada de ingênua, por manter uma relação cordial comigo (“quando eles casarem você vai ver quem ela realmente é”, profetizaram*). Meu marido já foi chamado de paizão por pagar pensão e estar presente na educação do Samuel.
 
Antes eu diria: quero distância desse tipo de gente. Hoje em dia, isso mudou: eu quero essas pessoas do meu lado. Senta aqui, vamos conversar. Madrasta é parte da família sim. Tratar uma pessoa que está diretamente ligada ao bem estar do seu filho com cordialidade não é ingenuidade,  é na verdade ser bem inteligente. Pai que paga pensão e participa da educação da criança não é paizão, é apenas alguém que está fazendo sua obrigação.
 
Esses conceitos não caberiam na vida da minha mãe quando ela tinha a minha idade, eu sei. Novamente, enfatizo: o mundo mudou. Muda todo dia, já está um pouco diferente de quando eu comecei esse texto. Não só irei eu abraçar essa mudança como buscarei fazer a diferença em crenças que sejam mais inclusivas e que abracem as novas formas de se relacionar que tem se desenvolvido. 
 
Será que a monogamia é algo aplicável à nossa sociedade? Devem casais separados morar sob o mesmo teto? É válido encerrar um casamento via whatsapp? Devo eu perdoar uma traição em prol do bem estar dos meus filhos? Devo permitir que meu enteado que conheci semana passada me chame de mãe?
 
Eu não sei. Eu não faço ideia das respostas. O que sei é que me permito fazer as perguntas. É incrível pensar que a mais absurda das perguntas é a realidade de alguém aí fora. Só por esse motivo, ela é válida e merece respeito. Merece ser considerada e incluída: isso, por si só nos tempos de hoje, é ser vanguarda.
 
Seja vanguarda, então. Não existe mais modelo ideal, ou certo. Rompa com qualquer ideia que te prenda, te exclua, te machuque. A vida é tão ampla, não?